Como se diz lua na língua de uma criança

Por: Téo Lopes

181603

Os médicos não perceberam, nem os pais, nem as tias que vieram fazer bilu bilu, nem a moça que deu a vacina e tremia mais que o bebê, nem os priminhos que queriam arrancar os olhinhos dela para ver o que tinham dentro, nem as mães dos priminhos que diziam: “Carinho, carinho... Só carinho...” Ninguém percebeu, mas a pequena Bianca nasceu com defeito de fabricação: um dedinho que só apontava para o ceú.

O dedinho de Bianca seria um ótimo objeto de estudos, mas o pediatra não deu a menor importância ao fato de que tudo que ela apontava ficava grudado na pontinha dele. E o que mais a garotinha apontava era a lua.

A lua, portanto, ficou grudada para sempre na ponta do seu dedo.

Isso fez com que ela entendesse de lua como ninguém. Numa tarde, de carro com o pai, a menina olhou para o céu e ficou espantada. Era a primeira vez que enxergava a lua durante o dia.

– Papai, papai!

O pai, sem paciência, como sempre:

– Que foi, menina!

– Papai, a lua se aprontou mais cedo hoje!

Mas o pai não se deu conta do tamanho da descoberta. Ele e a mãe tinham outras preocupações. Os dedos deles nunca apontavam para cima. Só apontavam um para o outro, acusando, exigindo, pedindo explicações, numa discussão de adultos que não tinha fim e que a pequena não entendia.

Lua crescente, no comecinho:

– Papai, papai!

O pai estava com o dedo apontado para a mãe:

– Quanto você gastou esse mês? Você tem noção?

Bianca não queria que a briga continuasse. Queria mostrar a nova descoberta que fizera e que estava ali, grudada na ponta do seu dedinho defeituoso.

– Papai, hoje a lua tá de boca!

– Cala a sua boca! Não fala assim comigo! Eu trabalho, eu faço o que eu quiser com o meu dinheiro!

A mãe também sabia aponatar. E os dois, pai e mãe, nem escutaram o que a filha dizia, mesmo a lua continuando a sorrir lá de cima.

A criança, nesse momento, do alto dos seus seis anos de idade, percebeu que os adultos carregavam muitas preocupações. Tantas, que pesavam até nos olhos, por isso eles só enxergavam o que se passava pelo chão. Tinham o grave defeito de não olharem para cima.

Acontecia tanta coisa lá em cima... A menina Bianca sabia de tanta coisa...

Ela sabia, por exemplo, uma coisa importantíssima, que ninguém percebeu. Nem a moça que falava sobre o tempo, na televisão, nem os grandes astrônomos dos grandes países preocupados com seus grandes projetos, nem os jornalistas ávidos por notícias impactantes, nem todos os cientistas com suas teses científicas escritas em publicações especializadas, nem as tias que só sabiam conversar bilu bilu com crianças...

Nenhum desses adultos percebeu, mas na última semana a lua vinha crescendo de tamanho como nunca tinha acontecido antes.

A menina comparava: a cada briga dos pais, a cada duelo de bocas e dedos, a cada revezamento de gritos altíssimos com longos silêncios, a lua crescia mais. Ela tentou avisar, mas eles não davam importância para aviso de criança.

Era como se a lua estivesse absorvendo toda aquela raiva, todo aquele ódio e rancor e decepção e desrespeito e falta de perdão.

Para muitos, para todo o mundo, aliás, era só a lua crescente se transformando em cheia.

Bianca sabia que ela crescia além do normal.

Até que numa noite sem nuvens, o pai chegou tarde em casa. Estranhou a porta da cozinha aberta. Olhou lá no quintal e viu a menina sentada no frio do cimento. Furioso, esbravejou:

– O que você faz aqui fora a essa hora?

Ela apontou para o alto.

– Papai, olha ali, a lua tá muito cheia. Vou ficar aqui, porque se ela cair eu pego.

Era tão claro. Era tão nítido. Se ela cair eu pego. Tão simples as coisas de criança. Tão simples o funcionamento da lua. Tão maravilhosamente simples a relação entre uma menina e o céu que a observa. Mas o pai, frio como o cimento, não entendeu. Levantou ela pelos cabelos e assim a levou até o quarto. Jogou a filha na cama e ainda gritou bastante. Estufando o peito, tirou o cinto da calça. Bateu na filha com força, depois fechou a porta do quarto com violência de adulto. Ficou lá dentro do quarto um choro fininho, um soluço de paz que repetia: se cair eu pego, papai, se cair eu pego.

O homem dormiu rapidamente, só tomando cuidado para não encostar na mulher, que já dormia e não sonhava com nada.

No meio da madrugada, o pai foi arrebatado de seu sono pesado por um grande estrondo. A mãe ficou na cama, em estado de choque. O marido saiu, procurando os interruptores e as maçanetas necessárias para fazê-lo chegar até o quintal.

Na noite fria e escura, Bianca chorava, ajoelhada, cercada de centenas de milhares de caquinhos prateados espalhados pelo chão.

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