Astros e giros

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Nas proximidades do Velório São Vicente de Paula, onde estive para me despedir de amigo apressado, fui abordado por simpático senhor, certamente com alguns anos menos que eu.

– Professor, como vai?

– Vou bem, obrigado.

– Eu leio seus artigos no jornal, gosto muito.

– Fico feliz, obrigado.

– Eu queria agradecer por ter colocado o nome do meu pai na história do Ronanzinho.

– Como? O nome do seu pai?

– É. Meu pai chamava Astrogildo.

– Ah, que pena, eu sinto muito. Mas o Astrogildo que eu citei era o pai do meu amigo Ronan.

– Ah, então o pai dele também chamava Astrogildo? O meu também. Trabalhou muitos anos lá no Brejinho... ele era o barreireiro.

Despedimo– nos depois de conversa curta e, desde então, intriga– me mais esta coincidência.

Em minha primeira tentativa de escrever um romance, idealizei uma grande metáfora; comparar o comportamento humano ao dos astros, fixando identidades e dessemelhanças. Almejava, no fundo, que meu leitor compreendesse que o homem, mesmo quando não o sabe, caminha em direção a Deus como o sistema solar se aproxima, cada vez mais, da estrela Vega. Procurei, para realização de minha tese, classificar o homem em três etapas de desenvolvimento: na primeira, quando ele está inconsciente por completo da sua sina e da estrada a percorrer; na segunda, quando, impulsionado por conflitos, movimenta– se desordenadamente, à procura de sentido para a vida; e, por último, quando ele caminha sem tropeços, parecendo ser conhecedor do norte e dono do seu futuro.

Durante meses tentei inventar um nome para meu protagonista. Por entender que a maioria dos homens se encontra na etapa do conflito e da busca, do rodar incessante, do desnorteamento, queria que simples nomes sintetizassem tudo isso. Fracassei por inteiro. O mais perto que cheguei do meu desejo foi no nome Astrogildo que eu pensava ter inventado. O Astro ficava claro, o leitor que descobrisse que Gildo pretendia remeter a giro, a coisa que não para de girar.

O tempo passou. O pretenso romance ficou resumido a originais. Apenas o título pomposo sempre me agradou: Viagem para Vega.

O tempo passou e depressa. E não é que, trinta anos depois, descubro que o pai do meu amigo Ronan se chamava Astrogildo? E não é que agora descubro outro Astrogildo na mesma região do Brejinho, na mesma região da Fazenda Limeira, na mesma região da cidade de São Tomás de Aquino?

O tempo passa, e continuo aprendendo, descobrindo: as coisas existem desde sempre. Nós apenas as descobrimos, apenas as desvelamos.

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