O homem e o jardim

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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A casa é de esquina, recuada no terreno. Suas laterais dão para os dois lados das ruas, com um grande espaço entre as paredes e o muro, completado com grades de lanças nas pontas. Um caminho cimentado leva do portão à entrada da sala. O restante é ocupado por um lindo jardim, cuidado amorosamente por um senhor de cabelos grisalhos, visto sempre por lá, quando eu passava. A terra é pródiga para quem a procura e nela trabalha com método. Por isso, este é viçoso, com muitas espécies de flores, desde a rainha rosa às simples marias -sem -vergonha que insistem em avançar no espaço das outras. Um enorme e sempre carregado hibisco duplo, amarelo, que se sente o próprio rei do jardim, é destaque no meio das outras plantas: antúrios brancos e vermelhos, copos de leite, lírios alaranjados, hortênsias lilases, um canteiro de florezinhas que atraem beija-flores e borboletas, outro de gerânios rosados. Em um canto, as alamandas cor de sol de uma trepadeira explodem entre as grades, formando uma cortina natural. Não é um jardim moderno, frio, com plantas finas, pontudas, sem cores, sem história. Ao contrário, todo colorido, acolhedor, humano. Em parte dele, pode- se ver, também, plantas aromáticas, apropriadas para temperos ou um bom chá como manjericão, alecrim, hortelã, erva cidreira e a imbatível melissa. Verduras e legumes como couve, pimentas, cebolinha coexistem harmoniosamente com as flores. Não estranhei, pois, quando criança, via no quintal da casa de minha avó espanhola lindos canteiros de espinafre, como tapetes verdes, entremeados de finos e altos pés de dálias de todas as cores e tamanhos.

Muitas vezes elogiei o capricho e dedicação de seu cuidador e até mudas eu ganhei. Ultimamente não o estava vendo no local. Logo minha curiosidade foi esclarecida. Uma placa de “vende-se” foi colocada na casa. A família havia se mudado. Os novos moradores encontrariam o jardim já pronto. Este homem viveu lá enquanto pôde, plantou o que quis, colheu as mais belas flores, dedicou-se ao que gostava, trabalhou com afinco, agora era hora de se mudar. O importante é fazer acontecer, criar, produzir, plantando sementes, sejam de flores, de trabalho, de esperança. Outros irão aproveitá-las na sequência da vida.

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