Qual nuvem leve

Por: Chiachiri Filho

Agosto chegou ao fim. Muitos detestam esse mês. É um período de poluição, de poeira, de ventos irritantes. A pele fica seca, a garganta irritada, os olhos ardendo. O sol é quente, mas a sombra é fria. Chamam-no até de “mês do cachorro louco”. Não sei bem o porquê dessa denominação. O fato é que ela pegou e ficou. Enfim, o mês de agosto não é bem-vindo por muita gente.

Apesar de tudo, suponho que foi num mês de agosto que um dos melhores poetas da Franca, o goiano Higino Rodrigues, escreveu um dos mais belos sonetos de nossa literatura. Na Praça Barão, no café Globo (situado ao lado do sobrado verde onde hoje se encontra o edifício Franca do Imperador), Higino Rodrigues, deslumbrado com a beleza de uma garçonete, pegou num papel de embrulhar pão e escreveu:

“A pinta preta que tu tens no rosto

– É uma pinta tão mimosa e tão pequena

– Que te dá mais encanto e mais amena graça

– Qual nuvem leve em céu d’ agosto.”

Poeta é poeta. Seu olhar é diferente. Enxerga belezas escondidas, encobertas, dissimuladas. Busca inspiração no pior mês do ano: seco, frio, cheio de sol, poluído e empoeirado. Consegue ver num céu d’agosto uma nuvem leve, suave, delicada, tênue e graciosa.

Portanto, caro leitor, faça como o poeta. Olhe para o céu deste mês de agosto e encontre, além da poeira, da poluição e da secura, uma nuvem leve que lhe dá “mais encanto e mais amena graça”. Suba até às alturas, agarre a delicada nuvenzinha e ganhe a imensidão do céu. Dê asas à sua imaginação, coma o infinito, torne-se leve e livre, transforme-se, pelo menos uma vez, num poeta, e sinta a beleza da vida que se revela aos olhos de um vate desvairado.

Ah, como é bonita e graciosa uma nuvem leve em céu d’agosto!

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