O silêncio

Por: Heloisa Pereira de Paula Reis

O silêncio que permeia seus dias faz com que ela se sinta como se ostra fosse, a viver em uma concha. Uma concha que ela mesma se impôs. Ou impuseram... Quem sabe.

De início o silêncio a incomodava. Incomodava mais que a maledicência traduzida em palavras ou olhares falantes. Mas pouco a pouco foi percebendo que era assim que deveria ser e ponto.

A subserviência a tornava cada vez mais infeliz. Não tinha aprendido a fazer-se respeitar. Mas fazer o quê, se nada sabia?

O vazio silencioso a fazia perguntar se amanhã teria o que fazer. Mas a resposta não vinha. Fugia, por já saber o que responder.

Sentia-se um ser inexistente a espera do resgate da morte.

Negara-se a si mesma a alegria de doar algo de seu... Como o seu amor, que não soube dividir com ninguém. Ninguém suavizava suas noites de angústia...

Seu passado emergiu, sem que se desse conta. E era tão difícil viver perto do passado...

O desapego não era seu forte e ela sabia muito bem. Compartilhar suas duvidas era tão difícil e ela não entendia porque isso sempre acontecia com ela, que sempre perseguia quimeras, como se fosse um antídoto perfeito para suas frustrações... Que não eram tão poucas assim.

A solidão se fez necessária para entender que tudo o que passou não volta mais. Nunca. Nem travestido de outras roupagens. O novo substitui o velho e ponto.

Sua vida não tinha finalidade. Ela a tolerava sem reagir... A nada. Não tinha opção alguma. Sequer um deslize havia e ela cuidava para que não houvesse... Até que... Até que depois de exercitar-se no silêncio, transmitiu para si mesma que deveria procurar a felicidade, a generosidade, a vida... Resolveu então jogar tudo para o alto e procurar dentro de si aquela outra que queria trazer para o mundo. Ela mesma. Ou a que julgava ser.

Mudou seu modo de agir, de pensar... De ver tudo o que a circundava.

Cortou seus longos cabelos, que nem sabia mais se gostava deles assim. Acostumou-se com eles alcançando suas costas. Mudou a cor. Sentiu-se viva, bonita o bastante para readquirir a confiança em si mesma.

Deixou de lado as roupas há tanto tempo usadas, que até já faziam parte de seu corpo e trocou-as por outras que jamais pensou usar. Coloriu-se! Rejuvenesceu!

Seus olhos, antes embaçados pela vida, se abriram para ver. Readquiriu o direito de ver o que deveria ser visto. Seu mundo interno e o mundo externo. Sequer imaginava que os dois lhe pertencessem. Readquiriu-os. Tomou posse dos dois.

Era outra mulher. Aquela que sempre deveria ter existido e que sequer sabia dessa possibilidade. A possibilidade do ver com olhos de encantamento. Do encantamento de saber-se viva para a vida. A vida que no aqui e agora desenhou para si mesma, certa de que nada, nada seria como já foi um dia. Nem repaginado. Melhor ou pior... Mas plena de vida a ser vivida.

Para ela não seria um recomeço, mas sim um iniciar. Iria, certamente, esquecer o que já havia passado. Necessitava entender o novo. Impregnar-se de todas as novidades. Viver!

Mas como? Como bem entendesse. A seu bel prazer... E quanto prazer pensava usufruir dessa nova vida? Ela não sabia. Mas viveria cada minuto para que tudo valesse a pena. A pena de ser vivida!

E assim seria. Ah, como seria...

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