Me pegaram

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Existe uma cidade dentro da cidade de Franca. E ela se chama Praça Barão.

Os passantes a cruzam, até fotografam suas sibipirunas, o palacete da Baronesa da Franca, o Restaurante Pajé, o Francafé, o Senhor Café, as lojas de calçados, e se vão, sem atentarem para o fato de que a praça constitui comunidade autônoma, encravada na cidade.

Os visitantes não podem ser acusados de omissos ou de incultos, uma vez que mesmo a maioria dos francanos também desconhece o que parece tão óbvio aos frequentadores do local.

E, em verdade, nós que ali passamos parte da vida, sabemos que a Praça Barão é uma cidade independente, regida por leis democráticas, compiladas e ordenadas no Direito Consuetudinário, ao qual os frequentadores dócil e obedientemente se submetem. Por exemplo: no Francafé há uma mesa pertencente, de oito e meia às nove horas, ao Dr. Lancha Filho e Dr. Pedro. Ninguém da comunidade ousa sentar-se ali a não ser que seja convidado pelo médico ou pelo causídico. Já no Senhor Café, há uma mesa, bem ao lado da caixa, pertencente, de sete às oito horas, ao Laércio, ao Wagner, ao Robertão, ao Serginho, o milionário, ao José Leandro, ao Solano, ao Mário Del Bianco, enfim ao grupo responsável por parcela graúda do PIB (produto interno bruto) de Franca. Existem ainda os bancos há anos distribuídos: este é exclusivo dos aposentados, aquele dos diamantários, o outro dos desocupados... A marquise da Casa Barbosa pertence, de direito, ao Seu Antônio Luís da Cocada, cidadão de invejáveis cordas vocais. Ao longo do dia, ele grita seu pregão:

– Cocada é doce de leite com coco. É um real.

É sabido em Franca que grande parte das transações imobiliárias da região se iniciam ali, na conversa de dezenas de corretores e agiotas que se acotovelam à porta dos cafés, dos prédios, à sombra das árvores.

Além de quase habitante, sou apaixonado por aquele universo, sobretudo porque na Praça Barão convivem francanos e mineiros os mais criativos. Às vezes, chego a pensar que existe uma plantação de literatura lúdica naquele chão, pois, a todo momento, em tudo que se ouve, há alguma coisa alegre, existe uma brincadeira nova. Tanto é assim que, sempre que ali estou, procuro manter-me atento para não protagonizar alguma brincadeira, ser alvo de gozação das pessoas.

E não é que acreditem apesar de todas as minhas precauções, esta semana caí em esparrela?

Tomava uma média, comia um pãzinho, enquanto conversava com o Pedro Fagioni. Comentei que o vento estava demasiado frio, que aquilo era anormal, já que a primavera chegaria logo. O danado do Pedro, com cara de anjo, tocou a conversa.

– Frio mesmo estava de madrugada, quando fui tirar leite.

– Tirar leite? No sítio ?

– Não, na geladeira...

Me pegaram.

E só me restou participar do coro, gargalhar junto com todos os freqüentadores do café naquela hora.

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