A menina da janela

Por: Farisa Moherdaui

Fazenda Barranco Alto, dos sobrinhos Luiz Carlos e Suraia, ela comemorando mais um aniversário, em festança para ninguém botar defeito. E nada impediu que naquele dia as incontáveis portas e janelas da casa se abrissem para receber os convidados, entre os quais idosos e, claro, a juventude alegre, que beleza!

Cumprimentos, abraços, comes e bebes; músicas alegres e outras nostálgicas também, porque não? Refrigerantes, cerveja, vinho e até batida de limão e Smirnoff foram servidos, o que não faz mal a ninguém se bebidas com moderação né? Dirigir também não.

A casa da fazenda com os seus quase dois séculos de existência naquele dia principalmente levou os convidados à lembrança de personagens descritos em romances de José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo e outros consagrados escritores com as suas sinhazinhas, os escravos, os senhores de engenho e capatazes. Ali na fazenda, ainda, o desativado monjolo, porteiras, curral, o torrador e moedor de café, o pilão, a escada de pedra que chega à cozinha de onde o cheiro gostoso dos quitutes preparados e, quem não se lembra, as mucamas?

No interior da casa, salas com mesas recobertas em toalhas de crochê e, nos quartos, camas forradas com colchas de retalhos. O assoalho largo, num ranger suave, e num dos quartos, o que há de mais belo, um altar com imagens de santos que o tempo não conseguiu danificar. Numa outra sala o majestoso relógio em todo o comprimento da parede e o seu badalar compassado como que soluços de saudade.

Luiz Carlos, Suraia e as filhas Marina e Anelisa são incansáveis no trabalho de conservação das coisas antigas, mas sem descuidar do que há de moderno e atual como a piscina de água límpida e natural, vinda do ribeirão que circunda a fazenda; o jardim, as orquídeas raras, um luxo só.

E, voltando à festa, muitos viram lá de baixo a figura displicente e alegre debruçada na janela de um dos quartos, como que a reverenciar aquele pedaço de natureza tão belo: o riacho frente à casa, árvores frondosas e flores cobrindo o caramanchão.

De repente, um clic e um clarão saídos de uma câmera fotográfica. E a foto da mulher idosa e sorridente, debruçada na janela, apareceu.

Artista, o fotógrafo; mas a modelo, deixa pra lá.

Mas se você, leitor ou leitora, quer mesmo saber, fui eu, sim, dona Farisa, a modelo por um dia, a “menina da janela”.

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