Cheiro de flor

Por: Eny Miranda

Sabia que passaria por lá à boca da noite, exatamente naquele momento em que os olhos tentam fixar as cores, mas elas se vão diluindo, lavadas por uma onda escura, volátil, que surge de todos os lados, inunda o dia e apaga do mundo a vida visível.

Tanto melhor. A rua era áspera, inóspita, desagradável - asfalto mal conservado, calçadas irregulares, algumas semidestruídas. Dispersas entre galpões que abrigavam improvisadas fabriquetas de calçados e oficinas mecânicas, as casas, puídas pelo tempo. A maioria delas ostentava muros altos, compactos, com pintura desgastada ou manchada de limo; outras exibiam, nos muros pequenos, vãos gradeados e carcomidos pela ferrugem, deixando à mostra nesgas de jardim frio, seco, cerâmico.

Sentia-se triste sempre que por ali passava. Imaginava o quanto algumas árvores nas calçadas e alguns canteiros de florinhas, comuns que fossem, nas casas, animariam aquele espaço com a vida corriqueira e necessária que brota gratuitamente do chão, enriquecendo o olhar e evocando a força e a delicadeza, a serena beleza do imponderável. Lembrava-se de que houvera ali, noutros tempos, surgido num ponto qualquer, em fresta do cimento bruto, um pé de manacá - mirrado, floria, eventual e parcamente, não obstante os maus-tratos. Mas fora cortado, porque “esses matos só servem para sujar a calçada e dar trabalho”.

Tendo a noite engolido o espaço, seguiu mais cautelosa. Seu norte, encontrava-o agora nos arquivos da memória, na velha agulha apontada para repisados chãos.

Contudo, um fato novo veio alterar o campo magnético daquela conhecida bússola. Decerto errara o caminho. Aquele odor não constava do trajeto. Era um perfume adocicado, insinuante, envolvente. Perfume de vida. Cheiro de flor. Seriam damas-da-noite? Camélias? Jasmins? Vindo, a princípio, de longe, aproximava-se, abraçando o ar, abraçando a ela mesma, envolvendo-a em aérea teia de finos fios fragrantes e transportando-a a outras paragens.

Sentia-se agora em rua arborizada; as casas ajardinadas, os muros baixos. As borboletas - podia percebê-las à sua volta - dormitavam nos arbustos, asas em repouso, à espera dos primeiros murmúrios da manhã. O ar fresco ratificava a presença do verde; o perfume, cada vez mais intenso, era já perfeitamente identificável: manacá-de-cheiro! Era ele, odor do quintal de sua infância!

No dia seguinte, veio cedo. Queria descobrir o que acontecera. Veio como o poeta: “de branco pela rua cinzenta”.

E, ah, a vida e seus segredos abismais: mil flores nasceram na rua! De uma só raiz, de um só tronco, desprezado, decepado (porque “esses matos só servem para sujar a calçada e dar trabalho”). E não são feias, nem desbotadas. Exibem-se, agora, incontáveis, soberbas, luminosas. Sim, luminosas! As pétalas bem abertas vão do branco ao violeta, em grande buquê, vistoso, viçoso, exuberante. Seu nome está em inúmeros livros (são muitos os nomes, na verdade, e íntimos de milhares de vozes): manacá-de-cheiro, manacazinho, manacá-de-jardim, ontem-hoje-e-amanhã (e-sempre, se Deus quiser!)...

“É realmente uma flor”, uma flor que “cava sem alarme, perfurando a terra” e se reergue e “se desata: em verde” e roxo azul e rosa e branco.

“Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu”, que mil, um milhão de flores nasceram de um só tronco, de uma só raiz. Um pé de manacá “furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”, e se talhou em pétalas e incensou a noite e redesenhou a vida.

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