Juca

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Quando o conheci, ele era homem feito, alegre, trabalhador, educado, nada que lembrasse sua história um pouco incomum. Sua mãe prometera à irmã dela que daria o próximo filho para ela criar, já que Joana estava casada há anos, não tinha nenhum e desejava ardentemente uma criança. E foi Juca quem nasceu pra protagonizar esta estranha situação de ter duas mães. Ao vir ao mundo, numa fria manhã de inverno, na modesta casa de Mariinha, já tinha a esperá-lo Joana e Antônio, seus pais, dali em diante, que o acolheram como filho e só não o levaram para casa porque ele precisava do leite materno para ganhar força e se alimentar sozinho. E, assim, ele foi criado como filho único de um rico fazendeiro, com privilégios que seus irmãos de sangue não tiveram. Como morassem perto, as crianças brincavam todas juntas e a convivência entre as famílias era perfeitamente pacífica. Para os vizinhos e familiares era tudo muito claro e definido. Seu pai apoiou a mulher e nunca fez referências sobre a atitude dela. Nem mesmo quando ele herdou sozinho a fazenda, seus irmãos não questionaram a possibilidade deles, também, receberem suas partes dos tios que não tinham herdeiros, antes deste acordo entre as duas irmãs. Os filhos, incluindo Juca, nunca perguntaram à mãe quais sentimentos a levaram a tomar esta decisão, além da generosidade e desapego.

Passados vários anos, a família de Mariinha, como muitos que deixam a zona rural, mudou-se para a cidade, em busca de estudo e trabalho para os filhos. Estes foram progredindo, trilhando seus próprios caminhos, criando outros vínculos, ramificando-se. Os pais ficaram sozinhos como o curso da vida determina.

Enquanto isso, Juca sentindo-se muito cansado das lides rurais, casado e com filhos, vende a fazenda e vai para a cidade, indo morar em uma casa grande e confortável. Não demorou muito para que ele levasse seus pais verdadeiros pra morar com ele. Aparentemente, ele sempre foi uma pessoa ajustada, sem traumas e revoltas, mas a proximidade com a mãe era algo que sempre desejara. No âmago do seu coração queria sentir o que seus irmãos sentiram. Não teria muito tempo, mas, na sua humana fragilidade, sua alma fria necessitava da mãe verdadeira por perto, para ela aquecê-lo com seu calor.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras