O síndico

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, a mãe falava que eu iria ser padre, iria sair pelas estradas, pelas fazendas, distribuindo santinhos para a meninada e contando para elas as bonitas histórias da vida dos santos. Depois a gente veio para a cidade, ela me botou no catecismo, eu decorei rezas e outras coisas importantes. Fiz a primeira comunhão, mas não gostei. Achei tudo demorado demais, a ladainha do padre muito comprida, expliquei para a mãe:

– Quero ser padre mais não.

Aí a mãe virou a cabeça para outro rumo, entestou que eu deveria ser alfaiate.

– Deus me livre, costura é serviço de mulher.

A mãe argumentou muito, mostrou que o Antunes Alfaiate era importante, era famoso, devia estar rico. Embora desconfiado, esforcei-me para aprender o ofício, mas o dedal vivia caindo, a agulha vivia espetando o meu dedo, a linha vivia arrebentando. Teimei e larguei tudo. Acho que fiz besteira. Se tivesse virado oficial, hoje estaria bem de vida, igual ao Roberto Alfaiate, famoso na Rua General Carneiro, dono de poupança gorda no banco.

Enquanto a mãe sonhava profissão para mim - o pai só escutava e dava risada - eu ia ganhando dez réis, aqui e ali, engraxando sapato, trabalhando na padaria, entregando jornal, vendendo revista, lavando vidro na farmácia, lavando banheiro na Casa Higino, fazendo entregas da loja. Ainda arranjava tempo para jogar bola e freqüentar a escola noturna, onde irritava o professor Alberto Blucher, cochilando nas aulas de Química.

O tempo passou tão de mansinho que eu nem percebi.

Acabei meio bancário, meio professor, meio escritor e aposentado por completo - estágio em que estagio no banco da praça, nos cafés da Praça Barão, diante do televisor. Apesar dessas múltiplas e fecundas atividades, sobram-me horas de lazer. Aproveito-as para refletir. Medito agora a respeito das profissões de ontem e de hoje. Aquelas de minha infância e juventude foram recolhidas, arquivadas, armazenadas em poucas memórias privilegiadas. De minha cabeça sumiram quase todas. As poucas que sobraram podem ser contadas nos dedos das mãos e dos pés e, olha lá, é capaz de alguns dedinhos resultarem dispensáveis.

Por outro lado, as profissões atuais contam-se às centenas. E, dentre todas elas, a pior é, de longe, a de síndico.

Testemunho.

Moro em prédio de apartamentos e acompanho o trabalho do Edison, eleito, por aclamação, síndico do edifício. A posição lhe dá importância e mando sobre dois serviçais, responsáveis pela limpeza de todos os muitos andares e pela segurança do prédio.

Sorte do Edison é estar aposentado. Assim, dispõe de tempo para atender as demandas pessoais de todos os moradores, para discutir com motoristas que, inadvertida e sistematicamente, estacionam na vaga de emergência; para ir à polícia, fazer Boletim de Ocorrência reclamando da velocidade com que os veículos transitam pelo calçadão, pondo em risco a vida dos idosos que moram no prédio; reclamar às autoridades competentes do som insuportável da boate próxima que não deixa sequer os surdos dormirem.

Os moradores pagam taxa de condomínio, logo têm direitos, inclusive o de responsabilizar o síndico pela falta de energia elétrica ao longo de toda a rua, pelo enguiço do elevador, pela cachorrada dormindo diante do prédio, pela ausência do porteiro no feriado.

– E se eu sair e esquecer a chave?

Ser alfaiate, relojoeiro, consertador de rádio Semp, carpinteiro, entregador de leite ou de pão, eram profissões mais tranqüilas, as pessoas ficavam velhas, mas cabeludas.

Agora, não sei não. Parece que o Edison vem perdendo cabelo de forma acelerada.
 

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