Além das montanhas

Por: Hélio França

Pelas mãos da fresca manhã, veio à luz um sol brotado em chão de horizonte. Talvez à procura de alguma primavera, uma borboleta ziguezagueava parecendo não ter outro destino que não fosse brincar de ser feliz. Frágil, mas lépida e dotada de um azul inebriante, contrastava os tons cerúleos de suas asas com as diversas nuances dos verdes claros e escuros do capim e o bambuzal. O ar extremamente puro dizia aos pulmões que a madrugada fora úmida na intimidade da mata, ali tão próxima, estupidamente virgem. O vale, pedacinho de um mundo quase intacto e recluso entre montanhas, transpirava contrastes e belezas. Era dia ...

O canto de um galo mais preguiçoso teimava em dizer que era ainda madrugada, embora a manhã já avançasse cálida, pujante e cheirosa ! O café passado há pouco e o aroma do queijo meia cura atestavam o despertar do olfato através das janelas abertas da casa, rumo ao êxtase dos odores naturais lá de fora. O hálito do chão orvalhado continha notas do capim gordura ainda úmido, somado ao amadeirado das folhas secas e cascas decompostas das árvores. Cheiro selvagem de vida e alegria. O sol foi comendo minutos e horas vorazmente com apetite impiedosamente amarelo. As juritis sabiamente refugiaram-se nos grotões às margens dos córregos e nascentes onde a atmosfera guardava ainda o frescor dos sombreados. O solo exalava agora um cheiro de mato ceifado à flor da terra, pelo aço cortante e preciso que a lâmina da enxada lhe impunha em golpes cirúrgicos de suor e alegria, a mando de mãos calejadas, firmes no cabo de guatambu. Era roça...

O início da tarde foi anunciado pelo caminhar sôfrego das vacas indo de volta ao pasto, indiferentes aos mugidos pungentes dos bezerros apartados, recolhidos ao curral após a segunda ordenha. O solo morno coberto pelo capim mas a céu aberto, contrastava com o outro, úmido e frio, no ventre da mata, onde a água pura e cristalina aflorava intermitente na reentrância de pedras e musgos, saciando todos os mistérios. Era vida ...

Algumas horas mais e uma aragem fria recomendou o descanso ao sol, que foi adormecer em outro chão de horizonte, não sem antes apagar todas as cores do vale, deixando aos olhos apenas um teto escuro, salpicado de estrelas, incrivelmente belo, infinitamente próximo da alma. Era noite ...

Os ruídos emitidos agora vinham da mata silenciosamente povoada de sons distantes. Animais, insetos, e curiangos insones. Podia-se perceber um uivo plangente, longínquo, talvez um lobo embevecido com a lucidez hipnótica da lua cheia, clara, exata, enigmática como a esfinge, misteriosa como o sonho, pura como o perdão. Era Minas Gerais ...
 

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