A Invenção de Hugo Cabret

Por: Maria Luiza Salomão

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O filme A Invenção de Hugo Cabret, 2011, homenageia o primeiro cineasta da História do Cinema. A história baseada na vida real de Georges Mièlés é narrada com efeitos especiais fabulosos que não seriam alcançados, hoje, sem a sua criatividade, como mágico, diretor teatral, cenógrafo, ator, técnico e produtor. Ele deu um sentido artístico às descobertas, em 1895, dos irmãos Lumière. Mièlés era o “alquimista da luz”, segundo Chaplin.

Entre as engrenagens gigantes do relógio de uma Estação de trem parisiense, dos anos 30 do século passado, vive Hugo Cabret (Asa Butterfield). Lugar de partidas e chegadas, a Estação é o cenário para o drama do menino de 12 anos, que perdeu o pai em um incêndio, e se torna espectador (invisível e mudo) das vidas cronometradas que ele acompanha através do mostrador de vidro gigante do relógio da Estação. As pessoas parecem funcionar pontualmente, o bom dia da florista; o senhor a cortejar a dona do bar(driblando o seu cãozinho, que a guarda). O policial (Sacha Baron Cohen) caça-órfãos, com o terrível cão. Vidas engrenadas, “como o relógio”. Finalmente, Mièlés (Ben Kingsley) é o vendedor de brinquedos atrás de um balcão na Estação, ombros arreados, de olhar automático e vazio.

A herança de Hugo foi um autômato, que o pai e ele tentavam consertar, um sonho a dois, interrompido, que mantém viva a relação de pai e filho, e faz companhia a Hugo na sua solidão de órfão. Hugo se mantém invisível para não ser enviado ao orfanato, mas cobiça peças da loja de brinquedos de Mièlés, furtando-as para consertar o autômato. Sua tarefa na Estação é a de dar corda ao grande relógio, onde vive. Todos os elementos do cenário são personagens. Paris, “cidade-luz”, a torre Eiffel ao centro e as ruas movimentadas por carros (auto-móveis), se transmuta, na abertura do filme, em engrenagens gigantes como as do relógio, e a cidade parece ter vida própria, como se não fosse engendrada por humanos.

Autômato parece ter vida própria, enquanto figura que se movimenta “como se” fosse humano. Desperta um misterioso e arcaico fascínio, pois, embora inanimado, tendemos a projetar nele sonhos e desejos, o espectro de nossas íntimas experiências. Mesmo civilizados, guardamos esse funcionamento primitivo do psiquismo no plano individual, de modo semelhante ao arcaico homem das cavernas, ao conferir sentimentos humanos ao inanimado (pensamento mágico, supersticioso, pensamento concreto). Mas há outro tipo de pensar/sentir que sustenta a ilusão, que nos capacita a viver de forma imaginativa, entre a realidade e fantasia, e nos fazer crer nas ficções literárias ou na arte cinematográfica (pensamento sonhante, que amplia a percepção de si, do outro, do mundo). A arte evoca esse último tipo de pensamento, profundo e muitas vezes inconsciente, semelhante ao sonho noturno, a nos religar a realidade interna e externa, em nova configuração.

Ao se propor a consertar o autômato que escreve, sua herança, Hugo vive nesse mundo entre o real e a fantasia, assim tentando elaborar a sua perda e manter a esperança de dar continuidade à vida difícil de órfão. Necessitado de “conserto” está o velho Mièlés, na sua loja de brinquedos, também quebrado, moído pelas engrenagens da Vida (interiores e exteriores). Hugo irá mobilizar Mièlés, e o reconduzirá a crer novamente em seus sonhos, a ajudá-lo a realizar o que está fadado a fazer (criar sonhos compartilhados, a Arte do Cinema). Terá a ajuda da afilhada de MièIés, Isabelle (Chloë Moretz), os dois animarão a “Máquina do Mundo”.

Diz Mário Quintana: “os que estão fazendo amor não estão apenas fazendo amor, estão dando corda ao relógio do mundo”. Como Hugo e Isabelle conseguiram dar corda ao relógio do mundo? Compareçam e vivam mais uma aventura sabática francana, acompanhados de Débora Mellem. Engrenem conosco em mais um evento do Cinema & Psicanálise.

Serviço
Título: A Invenção de Hugo Cabret
Diretor: Martin Scorsese
Gênero: Drama
Duração: 126 minutos
Ano: 2011
Onde encontrar: nas locadoras

O diretor
MARTIN SCORSESE

“Eu fui um menino asmático levado a acreditar que não conseguiria ser muita coisa na vida.’ Scorsese

Scorsese, 70, nascido em New York, teve inúmeras indicações ao Oscar ao longo da carreira. Muitos filmes tornaram-se cult. Taxi Driver, 1976; Touro Indomável, 1980; Os Bons Companheiros, 1990; Cassino, 1995 (com Robert de Niro, protagonista, parceiro e amigo). Em O Aviador, 2004; Os Infiltrados; A Ilha do Medo, 2010, o protagonista foi Leonardo di Caprio.

Scorsese sofreu grave depressão pelos aparentes “fracassos”. O primeiro Oscar, em 2006, pelo filme Os Infiltrados, foi sentido por muitos colegas como uma espécie de compensação pelo não reconhecimento da Academia ao seu trabalho até então. Scorsese é presidente da Film Foundation, organização não lucrativa dedicada à preservação dos filmes mudos. Ele também ajudou a recuperar filmes de Glauber Rocha que estavam perdidos.

Scorsese faz citações em Hugo de filmes antigos, o famoso Chegada do Trem à Estação (irmãos Lumière, 1895); na cena de Harold Lloyd pendurado no relógio; e de Viagem à Lua (1896,Méliès). O filme se inspirou no livro de Brian Selznick que inovou na forma, com desenhos (verdadeiros story boards) que não ilustram a história, mas a contam, um “livro-filme”. O filme nasceu Cult. Até 16/09 o verdadeiro Méliès (500 filmes entre 1896-1912) está em exposição no MIS-SP.

Hugo recebeu o Oscar de Melhor Efeitos Especiais; Melhor Fotografia; Melhor Mixagem de Som; Melhor Edição de Som; Melhor Direção de Arte.
 

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