Os olhos de Tera

Por: Lucileida Mara de Castro

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Desde muito pequeno, Tera soube que a mãe curava as pessoas, principalmente as suas almas. Pessoas vinham de todos os cantos para conversar com ela. A mãe de Tera costurava todo o tempo de sua vida e enquanto cosia, atava aos pontos um pouco da dor dos outros. Inúmeras pessoas cruzavam a porta da pequena casa para terem suas fraquezas curadas pelas palavras benditas de sua mãe.

Foi no mesmo dia em que o missionário protestante veio em busca de respostas, que as asas do destino definiram o caminho de Tera. Quando aquele homem encurvado atravessou a soleira, o rapaz sentiu que aquele ser era seguido pela morte apenas meio passo atrás de cada gesto. Porém, também o sabia o missionário dos olhos profundamente azuis.

Assim que entrou, o homem credo procurou um canto onde se sentar, olhou para Tera, olhou para a mãe e chorou com uma dignidade que nunca antes fora vista. A mãe passou a costurar-lhe a dor. Quando muitos pontos tinham sido atados, ele a olhou profundo e longe. Morro hoje! Disse-lhe de passagem. Eu sei! Respondeu a mãe de Tera, enquanto costurava com linhas de lindas cores. A morte é coisa simples. Ensinou a mãe de Tera. O que construí? A quem servi? Indagou o moribundo com voz rouca. E o que importam essas coisas? Não há nada que valha exceto cumprir a caminhada. Concluiu a mãe de Tera.

O missionário de cabelos brancos viu-a arrematar a costura. Viu-a se preparar para cortar a linha. Levantou-se relutantemente e caminhou para fora. Antes de sair, estendeu para Tera um velho saco de lona com seus poucos pertences dentro. Eis. Fique para ti. Há de servir para algo. E dito isso, foi-se lenta e definitivamente. Foi assim que Tera, que nunca tivera nada, tinha agora algo de seu. Mas era tempo de guerra...

Então, quando Sua Majestade Imperial, o Sultão Abd-ul-Hamid II, Imperador dos Otomanos, a quem Tera nunca veria enquanto vivesse, selou-lhe o destino, transformando suas mãos de agricultor em mãos de soldado; quando a miséria e a fome foram semeadas nos campos de sua pequena Zahlé, cobrindo de tristeza e dor os contrafortes das montanhas do seu mundo, nesse tempo, Tera pegou seu único pertence e resolveu partir.

Seus olhos perderam-se nas águas do rio Berdawni, percorreram mentalmente o percurso que deveria cobrir para fugir das mãos absolutistas daquele que se arvorou em senhor do seu destino.

Quando o momento chegou, o navio feriu o azul profundo do Mediterrâneo para levá-lo ao seu destino. Os dias longos, marcados pela solidão, levaram-no a abrir, pela primeira vez, a sua herança e conferir aquilo que agora, por doação, era seu. Curiosamente, ao abrir o velho saco, tinha nítido diante de si o olhar de seu pai. Nada havia que não conhecesse. Ali estavam coisas que, quando criança, vira nas mãos de seu guia: a bíblia maronita; o mesmo exemplar lido e relido e novamente lido e relido das Mil e uma noites; o manto que jogava sobre os ombros para se aquecer...

Entretanto, se pensasse nos olhos da mãe, sua bagagem era bem outra. Tera levava consigo as peculiaridades de seu povo, o jeito ressabiado, o árabe falado com um sabor todo especial, o gosto pela poesia e pelo vinho, a intensidade e um jeito de olhar os olhos e ver as almas. De material, apenas um objeto raro, uma concha atípica, potente, capaz de guardar em si o profundo do mar.

Tera foi pelo caminho guardando tudo: seus medos, seus sonhos, o verde das montanhas de seu vilarejo, a neve que marcava os invernos, seu povo, seu Deus, a primavera marcada pelos ventos Khamsin. Guardou a música, a cabeça erguida, a insolência, a água fresca do rio que cortava a sua cidade. Guardou a memória de sua mãe sentada cosendo dores e plantando flores nas almas sentidas, guardou a convicção de apenas deitar-se com uma mulher se a amasse e a lembrança que nunca amara ninguém.

Foi assim, apenas o seu velho saco de lona, que desembarcou no Brasil. Foi então que virou Tera o mascate e passou a correr país adentro vendendo coisas, olhando os campos, olhando as vidas, as casas, os caminhos, sempre a procurar os verdes de sua Zahlé. Quando viu pela primeira vez a distante Serra do Indomado, encontrou as duas pontas de uma mesma fiada. Olhou profundamente para sua concha, ouviu a voz da mãe, ouviu o vento da primavera e descobriu que chegara em casa.

Ali descobriu que amava, ali se deitou com a mulher amada e ela lhe deu um filho, ali descobriu que era tempo de ficar. Ali ficou para sempre.
 

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