As paixões do Imperador da Língua Portuguesa

Por: Sônia Machiavelli

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Imperador da Língua Portuguesa foi como chamou ao Padre Vieira o poeta Fernando Pessoa, em homenagem, reverência e admiração. Nascido em Lisboa em 1608, Vieira veio para o Brasil com a família aos seis anos. Jesuíta aos 19, sacerdote aos 26, cedo se tornou conhecido pelos dons oratórios. Quando seu Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda chega aos ouvidos de Dom João lV e de sua mulher, Luísa, em 1641, estes o convocam a Lisboa. Diante de Luísa, Vieira escreverá depois: “Fui inundado por forças e desejos que me deram asas, que me abriram comportas secretas. De um recinto proibido para mim entranhou-se em minha vida um clarão”. Viram-se apenas três vezes e esta paixão permaneceu no plano platônico, movendo Vieira em missões diplomáticas.

Por uma década ele transita bem pela Europa. Mas em 1652 , ao defender a permanência dos judeus em Portugal com uma frase célebre (“Expulsá-los será exportar riqueza e inteligência”) e fazer duras críticas à exploração dos escravos no Brasil, fere interesses lusitanos, fomenta inimizades, é transformado em réu pela Inquisição e condenado à pior pena que lhe poderiam impor: “Seja privado para sempre da voz ativa e passiva e do poder de pregar”. Também o degredam em Roma, onde chega em 1669 e deve permanecer por cinco anos.

Ali se encontrava há pouco tempo Cristina Vasa, ex-rainha da Suécia, que abdicara do trono e se convertera ao catolicismo, o que significava um ganho para o Papa Clemente lX. Instalada em Riario, hoje palácio Santo Ângelo, Cristina, mulher de grande inteligência e cultura, poliglota e física, amiga de Descartes, criadora de uma Academia de Letras, pede ao Papa permissão para receber Vieira, cujos sermões conhecia. O contato com esta mulher que lhe pareceu “Única”, como a adjetivou, desperta-lhe paixão semelhante à que havia sentido por Luísa. Cristina corresponde, mas intui que ele permanecerá fiel ao sacerdócio: “Minha missão são os pobres, os miseráveis, os índios, as pessoas de África”, registrará numa das cartas a ela enviadas.

São esses cinco anos em Roma que atraem a atenção da historiadora austríaca Glória Kaiser, seduzida e também apaixonada pela riquíssima troca de correspondência entre Vieira e Cristina e pelos encontros quase diários em Riario. As cartas pesquisadas em acervos europeus, brasileiros e americanos constituem a essência deste livro de importância imensurável a quem se interessa por história e pelos complexos movimentos da alma, tão mais sofisticados quando dizem respeito à paixão.

Quando Cristina Vasa investe todo seu poder junto ao Papa, para que lhe conceda receber Vieira, como interlocutor, ela atende a um imperativo de seu coração. Responsável pela morte de um conselheiro em Fontainebleau, num momento em que tentava se tornar rainha de Nápoles, sente-se torturada pela culpa. Só nos sermões de Vieira encontra algum alívio. Em um deles sublinha as frases: “Confesse seu pecado e você estará livre, e a serpente do pecado se afastará. Temos de encontrar a nossa sombra dentro de nós, porque atrás dela se escondem o nosso sadismo, a nossa brutalidade, e somente quando aceitamos sem medo aquilo do que somos capazes podemos continuar nosso caminho através da escuridão.”

Textos assim, impactantes pela verdade que desvelam e belos pela estética que os permeia, estão semeados e devidamente aspeados por todo o livro, como palavras documentais, assinadas, escritas em diários e cartas há mais de dois séculos e de impressionante atualidade. Como o que inspira à Kaiser o título do livro, e onde Vieira, instado por Cristina, lembra que “ ... a luta contra o poder erótico não pode ser vencida, pois com isso lutamos contra a própria vida. O poder erótico só pode ser domado pelo espírito; e temos de trabalhar nisso, e em relação a isso temos de orar e lutar, para que o poder erótico se transforme em força para nosso espírito”.

Antônio Vieira termina seus dias aos 90 anos, em Salvador, cidade que amava e onde era muito querido pelos baianos. Luísa morre alguns anos depois do último encontro com Vieira. Cristina Vasa também sobrevive pouco à separação e, a pedido de Vieira, seu corpo é sepultado no Vaticano. No Brasil, Vieira continua a pregar e cuidar de outra de suas paixões: a escrita dos sermões, cujas palavras lapida incansavelmente. Pois, para ele, as palavras deveriam ser como as estrelas: “claras, precisas, sublimes’.

Serviço
Título: O Poder Erótico
Autora: Glória Kaiser
Editora: Reler

De olho no Brasil

Glória Kaiser
Nascida em 1950 na antiga e gelada Styria, localizada no sudeste da Áustria, Glória Kaiser é escritora que tem se interessado pelo Brasil, país que visita com frequência. Para lançar O Poder Erótico, esteve no Rio de Janeiro no começo de maio. Glória escreveu dois livros sobre figuras históricas do País, Dona Leopoldina e Pedro II, mãe e filho; a primeira, puríssima Habsburgo que viu a luz da vida no palácio de Schombrumm, em Viena. Mas a atenção de Kaiser já contemplou Mozart e Anita Garibaldi. A vida privada das figuras públicas é fonte inesgotável de interesse e este viés torna seus livros cada vez mais lidos.

Para escrever O Poder Erótico, a autora pesquisou nas seguintes instituições: Biblioteca Apostólica Vaticana, no Vaticano; Library of Congress, em Washington; Biblioteca Pública de Évora, em Portugal; Loyola University, em Chicago; Cudahy Library, em Los Angeles; Bibliothèque Publique et Universitaire de Genève, na Suíça; Biblioteca Raccolta, da Universidade Ca’Foscri, em Veneza; e Biblioteca do Arquivo do Estado da Bahia, em Salvador.

O livro mantém fidelidade a documentos, cartas e relatos de fatos históricos fundamentais, com a descrição detalhada de hábitos e costumes da época. E empregando uma linguagem elegante para unir os trechos aspeados, de fundamental importância para excluir o gênero ficção ao qual a obra não pertence, embora pareça, Kaiser alcança um relato de grande platicidade, que chega muitas vezes ao nível cinematográfico.

Quem já leu o Padre Vieira poderá entender enfim de onde se originou aquela energia extraordinária que tanto quanto produzir exegese inseminou as palavras de Os Sermões. (SM)
 

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