A etimologia da palavra Amor

Por: Maria Luiza Salomão

“O amor feliz não tem história. Só o amor ameaçado é romanesco”.

Denis Rougemont, suíço, ecologista, autor de O amor no Ocidente, considerado um dos 100 melhores livros não fictícios do Século.

Meu professor de português, do ginásio, tinha um método peculiar para ampliar o nosso vocabulário. Ele ditava a palavra e cinco alternativas (a, b, c, d, e) com significados possíveis para a palavra: alternativas incorretas, a alternativa verdadeira, e uma “pegadinha”. Tínhamos que escrever todas, o que parecia um absurdo. Mas confesso que ali começou meu interesse por etimologia. Aprendi o significado de prefixos e sufixos das palavras. Algumas palavras eu jamais esqueci como procurar o étimo delas.

Comprei o livro, de D. Zimerman, “Etimologia dos termos psicanalíticos”. Etimologia, de étimo (= o verdadeiro significado de uma palavra) e logia (= estudo, ciência). Na introdução, o autor examina a palavra Amor, que contém o prefixo “a” (uma negativa) e “mors” (no latim “morte”). Amor, a negação da Morte. Amor é, portanto, Vida. Amor não rima com Dor, mas em busca do Amor acontecem acidentes de percurso. Amores trágicos dão obras-primas, amores não correspondidos, amores sádicos, masoquistas, recheados de atos destrutivos, ciúmes doentios, inveja, ódio, vingança.

Quase ninguém parece acreditar em casais felizes, somente aqueles que o são.

Convivi com D. Júlia, ao final da minha adolescência, ela com cerca de 50 anos, inteligente e sensível, dinâmica, bastante sociável. Professora aposentada, participava de grupos de estudo sobre a Bíblia, ocasião para divertidas e sábias reflexões. Colecionava crônicas do jornal, recortando-as e encadernando-as com carinho. O marido, empresário, era dono de um temperamento forte, um fogoso italiano, primogênito, dominador. Juntos abriam, frequentemente, a casa para a família e aos amigos. Ela driblava esse gigante temperamento escrevendo-lhe cartas, quando pressentia um choque inevitável de opiniões. Ao seu modo e com sabedoria, não se submetia aos seus repentes, e o convidava a refletir, em solitária leitura, sobre suas atitudes, quase sempre radicais. A relação transbordava delicadeza e respeito, nutriam a admiração um pelo outro, mutuamente, e mantinham suas vidas enriquecidas, em independência afetiva, econômica e social. Não eram - um para o outro - a “última bolacha do pacote”. Um dia, ela começou a receber telefonemas anônimos que denunciavam “escapadinhas” do marido. Ela me dizia: “ele não merece que eu desconfie dele”. Atitude nobre. Percebi o seu gesto, não só de respeito ao marido (supostamente) traidor, mas de respeito a ela própria, igualmente. Ela confiava na sua experiência com ele, sustentando a profunda união. Ela nunca mencionou, nem a ele nem aos filhos, os tais telefonemas anônimos. Morreram os dois. Ele primeiro, ela depois. A última palavra que ele pronunciou, ao morrer, foi o nome dela. Ela também se foi, mas sofreu intensamente a sua ausência durante alguns anos e, depois, tornou-se, sozinha, a encarnação do casal, na generosidade da casa permanentemente aberta.

As pessoas são felizes, cada qual à sua maneira. Nunca saberei se o marido da nobre senhora era ou não digno da sua confiança (teria relevância a questão? A quem?). Seja o que for o que mantinham aceso - vivo - na relação conjugal, não morreu com eles. Para mim, eles são felizes e sua história faz parte do meu particular inventário etimológico, a dar significância à palavra Amor.
 

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