Esperança eu também tenho

Por: Luiz Cruz de Oliveira

A moça seguia pelo calçadão da Rua do Comércio, chupando um picolé. Tudo indica que acabou de saborear a guloseima no momento em que se aproximava da caçamba estrategicamente colocada junto ao muro do estacionamento e destinada a recolher o lixo do prédio vizinho e das residências adjacentes. Ela desviou um pouco o rumo dos passos, aproximou-se da caçamba e lá atirou o palito de plástico e o papel que, até então, protegera o picolé. Acontece que era agosto, mês de ventania e de cachorro doido. E, se a vacinação acabou com a hidrofobia, nada há que acabe com a ventania que assovia e assola as praças Barão e Nossa Senhora da Conceição e suas vizinhanças.

Assim, tão logo a mulher atirou o lixo na caçamba, o vento expulsou do recipiente o papel que partiu em rápidas evoluções em direção à Praça Barão da Franca. A moça não titubeou.Tentando derrubar o papel voador com a bolsa, tentando pisoteá-lo quando ia ao solo tomar fôlego, disparou atrás do fugitivo. Contra todos os prognósticos de quantos assistiam à cena, ela saiu vitoriosa. Quase na esquina, o fugitivo ficou preso à sola do sapato da perseguidora.

Vencida batalha, a mulher calmamente caminhou de volta, depositou o vencido na caçamba, tendo o cuidado de aprisioná-lo sob algum objeto pesado. E retomou sua caminhada como se nada tivesse acontecido.

O Edison Ferreira de Macedo foi um dos poucos privilegiados que assistiram àquele acontecimento. Obediente à sua índole, não se conteve. Interrompeu o caminhar da jovem, asseverou-lhe:

- Agora eu vi que ainda há esperança para o Brasil.

O cabeleireiro Ismar estava na esquina, no seu costumeiro observar das trabalhadoras no vai-e-vem pelo calçadão. Relatou-me a ocorrência que lhe pareceu sui generis, embora só conheça da língua latina três ou quatro palavras decoradas no tempo em que assistia a missas. Perguntou se eu também achava estranho o comportamento da moça, a intromissão do Edison.

Na hora, furtei-me de comentar.

Agora, aqui sozinho, despido de muitas convenções, reflito sobre aquele episódio, sobre outros semelhantes que também nunca serão divulgados pela mídia.

E concluo: esperança eu também tenho.
 

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