Festa da democracia

Por: Chiachiri Filho

Estamos em plena festa da democracia. A cidade hasteia bandeiras de variadas cores e diferentes partidos políticos. Carros de som percorrem as ruas tocando músicas de campanha e proclamando os nomes dos candidatos. Um grupo de pessoas alegres distribue sorrisos e abraços para todos os transeuntes. Há passeatas, carreatas, panfletadas. Porém, falta alguma coisa nessa festa. Sem dúvida, faltam os comícios.

A televisão trouxe muitas coisas boas e acabou com outras tantas. Acabou, por exemplo, com as conversas vespertinas das famílias. Lá pelas 5 horas da tarde, cadeiras eram arrastadas para a porta das casas e os diálogos prolongavam-se até a chegada do sereno. A TV (e as novelas) acabou também com os comícios. Não há mais clima para os comícios. Já em 1982, num comício realizado no jardim do Éden, numa noite friorenta de setembro, um dos candidatos a vereador na chapa do João Rocha, depois de esquentar-se com umas boas talagadas de cachaça, pegou o microfone e gritou:

Cadê o povo deste bairro? Onde estão os alienados que preferem se intoxicar com as novelas do que ouvir a voz da democracia.

Imediatamente, deram um chute no seu calcanhar e tomaram-lhe o microfone. No próximo comício alguém tomou o cuidado de, antes de lhe dar a palavra, sentir o seu bafo.

O comício era assim: Havia o improviso, o surpreendente, o espontâneo. Nos comícios havia o tempero, a pimenta, a alfinetada, a crítica livre e ferina. Era a época dos grandes oradores, homens que, com a palavra, dominavam a platéia e levavam os eleitores à apoteose. Pela palavra podia-se ganhar ou perder uma eleição. As idéias eram expostas com toda liberdade e a campanha política não se limitava a uma simples distribuição de panfletos ou a um hipócrita aperto de mãos. Hoje, ao contrário, os candidatos são enquadrados dentro de uma tela de televisão. Tudo é rigidamente programado: o olhar, o sorriso, as expressões faciais e, principalmente, o discurso. Nada pode fugir ao roteiro. O candidato é um produto a ser vendido ao eleitor. Caso o aceite, bom ou mau, doce ou amargo, insosso ou saboroso, o eleitor irá consumi-lo (ou por ele ser consumido) nos próximos 4 anos.
 

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