Aquela Mesma Criança

Por: Débora Menegoti

“— Ô menininha? O gato pardo comeu sua língua? Fala comigo!’

(Quem dera!)

 ‘— Aaah, o que foi??? ...Ele não come língua não, tá? Eu dei foi comida pra ele! E a seriema, a Clô, tá mimindo lá na cazina! Sabia? PSSHIIIIIU! Não faz baruio, trem! Se ela acordá, e tivé boa, mamãe disse que a gente vai tê que soltá ela... Ela tá mimindo tão bonitinha! E o Chico, (galo de estimação) tá ficando veinho e agora ela é a namorada dele, ele nunca teve uma namorada! Quem que vai andá atrás de mim se o Chico morrê? Eu num quero que o Chico morre!

Também tinha a Nitinha, nossa tartauguinha, você num acredita! Ela deu no pé! A danadinha cavou por baixo da cerca até passar por baixo e foi imbora! É claro que a gente viu o que ela tava fazenu um montão de veiz, mas nóis deixamo ela í! Ela não é bicho preso feito a gente! E também, mamãe um dia ia acabá deixano o sofá caí em cima dela. Aconteceu isso na casa da Veri, se a Sônia feiz isso sem querer, minha mãe uma hora também ia acaba fazenu quando fosse varrê de baixo do sofá. Foi por Deus que a Nitinha fugiu! Melhor assim! Quando eu chego da escola eu respiro aliviada pensando que ela tá vivinha da silva! Sabe, me disseram que a Nitinha foi morar lá no Vale das Borboletas... Cê qué í lá?! Não?! Então tchau! Eu vou lá! Vê se acho a Nitinha! Tchau!!!

E me sobra a sombra dessas lembranças encantadas, chinelos de dedo, roupas velhas, balinhas de goma nas cores verde e amarela, quebra-cabeça faltando uma peça que foi parar em Rondônia, chego em casa cansada, minha menina está brava, tem garrafas vazias sobre a pia, pratos sujos, cimento, muro chapiscado, vitrola muda... Ausências, movimentos mecânicos, Soren Kierkegaard...

E doar-se eterno nas condições do Tempo. Respirar o amor de vento.

... E nem cheiro dos meus Severinos.
 

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