Caleidoscópio

Por: Maria Luiza Salomão

Das folhas encorpadas no verão surgem flores e frutos no outono, que caem, aquelas secas e estes maduros. Os galhos nus do inverno não deixaram entrever toda a vida recolhida, que ressurgiu, de repente, em brotos tenros e verdes escondidos nas sementes deixadas pelos frutos ao léu. As chuvas engravidam as sementes e animais primaveris se acasalam. A faina dos passarinhos a construir ninhos, os bares cheios na happy-hour, céu cinza para multicoloridos corações humanos, árvores e planícies rebrotam da paisagem parda e ferruginosa. Depois o veraneio verde, enfolhando tudo em mil tons, natal, ano novo, carnaval.

Tudo o que morre, no eterno ciclo, ressuscita diferente, em mosaico reconfigurado.

Degusto minha salada verde, enfeitada de flores e sementes, meu caldinho de legumes, arroz integral, feijão com muito grão e pouco caldo, e alguma surpresa, que sempre tem. Meus ouvidos e olhos se abrem, livres, flanando pela eterna música da vida, pelas imagens silenciosas e ruidosas de dias tranquilos, e outros nem tanto, que se foram, que virão, e que estão sendo, agora. Sou a mesma, mas sou outra - um pedacinho do que fui, do que sou e do que serei me compõe e me decompõe, continuamente. Não existo em forma pura - enquanto passado, presente, nem como futura composição. Meu “eu” é um patchwork de tempos.

Afinidades eletivas me aproximam de gentes, e me recomponho em novas padronagens. Azulejamos, eu e as gentes que vão surgindo daqui e dali, em estampas surpreendentes. A composição dos azulejos, da minha vida e de outras vidas que se ligam à minha, narra cenas e lugares, canta folclore passado e anuncia cantos pressentidos de um futuro. Um rodízio de renovação dos efêmeros. O multifacetado semblante da vida, inaugurando outros “eus” e “tus”, outros “nós” e outros “eles”. Como serei amanhã?

O Tempo é caleidoscópico, compositor de infinitas mutações, que sabe usar as fragmentárias mesmices do Mundo (tão antigo). Esculpe a sua Arte, em sempre novas reconfigurações. Como sei o que fui ontem?
 

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