Ponto de fuga

Por: Eny Miranda

Deito-me. Apago a luz. Espero. Tudo à minha volta silencia. Então, do fundo mais fundo da noite, tímidas, elas começam a sair, uma a uma, a princípio; depois, cada vez mais soltas, mais confiantes, vão brotando em pequenos grupos, as palavras... e não demoram a surgir aos bandos, bailando livremente em torno, acima, à frente... voejando no espaço aberto, enchendo-o de sons inaudíveis, de frases inarticuladas... ainda.

Como as percebo? São luminosas; suas múltiplas facetas refletem uma luz de que não se sabe a fonte; assim, vagalumeiam no negror do quarto; archotes minúsculos suspensos no ar, boiando livres; pequenos diamantes a pisca-luzirem em tons variados. E inundam o ambiente de fulgurações policromáticas que olhos (fechados) e alma (aberta) adivinham.

Tento alcançá-las; quero capturá-las, para então tecê-las como contas luzentes em fio invisível; bordá-las como notas cristalinas em melodia suave; enfeixá-las como florais aromáticos em buquê perfumado. Desejo transformá-las em fina renda, ou linho ou seda ou lã... ou íris radiante para olhos artistas; canto para ouvidos sensíveis; bálsamo para o mais delicado dos sensórios. Em sons articulados, em cor, em aroma, penetrarão corações e almas, e se difundirão no espaço, no tempo, na história... como uma aluvião de amanheceres.

Mas são ariscas, escorregadias, as palavras. Estão ali, com suas mil faces faiscando; e bem aqui está o que preciso moldar: cresce em mim como luz difusa, como sons aleatórios. No entanto, elas parecem insensíveis, não se deixam alcançar. Agora, dirigem-se todas ao canto mais escuro do quarto, e desaparecem. Em seu lugar, duas portas se abrem para um espaço novo. Lá, os mais belos textos, os mais tocantes poemas se entreescondem. Posso ver seus contornos luminosos, sentir o seu perfume; posso ouvir os seus sussurros; mas não consigo distinguir suas linhas, perceber sua trama, ouvir suas notas, seus acordes; aspirar sua essência. Continuam inalcançáveis, ininteligíveis. Cansada, adormeço.

Em sonho, elas ressurgem com nova coreografia. Dessa vez, aproximam-se espontaneamente. Insinuantes, deixam-se tocar, acariciar... capitulam. Mas não as quero. De mim jorram notas e palavras e perfumes que se tecem, se nomeiam e se proclamam; ecoam, recendem, iluminam; dizem o que me preenche e me repleta; extasiam sentidos... extasiam... extenuam... esvaecem... evaporam.

Abro os olhos. Preciso do teclado, do papel, do lápis... Um lenço, meu Deus! Um pedaço de grafite, um batom, qualquer coisa que pinte o branco, que risque o vazio... rápido! Mas elas já se foram, esgarçaram-se aos primeiros lumes, aos prelúdios do albor que me colhe embebida em cores e palavras e notas e pétalas... mas sem fios de tecer.
 

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