Faz tempo

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Faz tempo. Faz muito tempo, mas meu coração cansado ainda guarda lembranças doces.

Era década de 1950, e a diversão da molecada consistia em assistir a seriado do Tarzã, da Jane e da Chita nas telas do Cine São Luiz e do Cine Santo Antônio, nas matinês de domingo, e jogar futebol na rua, com bola de meia, ou de borracha. Bola de cobertão (aprendi décadas depois que era bola de capotão) só mesmo quando algum pai dava dinheiro, o menino comprava uma bola velha lá no Internacional ou na Francana. Era costume a agremiação se desfazer das bolas que ficavam deformadas pelo uso ou que não mais permaneciam cheias, devido a defeitos no bico, local por onde se introduzia o ar para encher a câmera.

Os adolescentes jogavam futebol nas dezenas de campinhos que proliferavam em todos os cantos da cidade, capinados e conservados pelos próprios jogadores. Os gols eram feitos de bambu ou de eucaliptos, e todos os moradores dos bairros próximos torciam pela equipe que logo se desenvolvia ali.

Havia uma Liga Francana de futebol amador, presidida por Tufi Jorge, proprietário do jornal O Francano. Depois, a Liga foi comandada uma vida inteira pelo Paulinho Nascimento. A regra da Liga era que só podiam disputar o campeonato amador as equipes que possuíssem campos cercados por muros de tijolos. Então, o campeonato era disputado apenas pelas equipes do Fulgêncio, Palmeirinhas, Francana, Internacional, Iara (que emprestava o campo do Champagnat) e Comercial, único campo que não era gramado.

No princípio de 1959, o centro-avante Ciede de Freitas, o goleiro Sétimo Bolela e outros amigos fundaram a Liga Varzeana do Distrito da Estação que organizou o primeiro campeonato varzeano de Franca. As reuniões da Liga ocorriam em sala de edificação localizada na esquina das ruas Simpliciano Pombo e Padre Conrado, perto da residência do ponta-direita Vedevé e do volante Tim Ferrari.

A equipe do Caramuru sagrou-se campeã do primeiro campeonato varzeano de Franca.

O sucesso do campeonato foi tal que a Liga Francana resolveu assumir a organização das competições seguintes. E eles foram responsáveis pela revelação de dezenas de equipes e de jogadores que fixaram seu nome na história esportiva de nossa cidade.

Tanto é assim que, logo em seguida, fábricas de calçados ou de componentes montaram suas equipes, foram disputar o campeonato amador. Por exemplo, Samello, Rui de Melo, Terra, Amazonas foram responsáveis pelo surgimento de equipes muito fortes e pelo aparecimento de craques Pacífico, Japão, Aires, Tiplum que permanecem vivos na memória de quantos (amantes do futebol) tiveram o privilégio de viver naquela áurea fase de nossa história esportiva.

Na várzea não foi diferente. São Paulinho, Congregação Mariana, União, Laranjeiras, Miramontes, Vasco, Luso, Bandeirantes, Vila Nova e mais uma dezena de equipes impuseram seu nome e o nome dos bairros, onde se localizavam seus campos de terra, na própria história da nossa cidade.

Realmente, a memória francana, no que tange ao esporte, é ampla, profunda, riquíssima. Seria muito doído se ela se diluisse, corrompida pelo ácido da passagem do tempo.

Seria muito doído.

Por isso, faz-se premente a necessidade de as pessoas dotadas de visão e de amor por nossa terra se debruçarem sobre os arquivos do craque Capeta, sobre a memória de Jovassi Correa, sobre as fotos e anotações de tantos ex-dirigentes ainda vivos, enfim, sobre as lembranças vivas que pululam em clubes, em bares, em residências humildes.

Faz-se imperioso que os apaixonados por Franca e pelo esporte emparedem, com palavras, e reconstruam cada equipe, cada campo de terra, cada jogador, brilhante, ou não, cada campeonato, cada vitória e cada derrota, cada torcida..

Para, com cada tijolinho desses, reconstruir a História do futebol francano..
 

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