Primeiros Passos

Por: Débora Menegoti

Branquinha linda do céu, digo-lhe que vou ficar à maneira das águas, vou levemente, fluindo em transparências como na superfície dos olhos pousados sobre as pedrinhas redondas que me remetem outros que são pares de ônix, jabuticabas, a me esperarem ansiosas.

Quero a cachoeira das quatro da tarde, subverter os planos do dia, quero mordidinhas, leves beliscões, joguinhos de amor, arranhões, ser bicho manso, de estimação, bicho selvagem, para lutinhas de amor, para dar risadas infantis dez novos tons de ‘pique esconde’ para lavar a alma ao pé do amarelar redondo do tempo na mangueira d’água.

Pretendo ainda, prateada, comemorar muitas e muitas vezes as três datas que mais me são importantes começando com aquele nascimento, aquela vida que brotou de mim, depois com a data marcada pelo primeiro gargalhar, também daquele ano do nosso reencontro... Beijo nos olhos, aquele dia de jardim, sob o véu de luz que você, já despida, deixava cair sobre nós. (Lembra-se?)

Tudo em harmonia, tudo assim como foi dito: fundido. Unificado e infindo...

Somente assim poderei descansar horas a fio, mesmo antes de pegar no ligeiro sono; talvez repousando os olhos sobre as páginas de livros que oportunamente ele virá me ofertar (como quem traz uma oportuna sobremesa à sombra das horas); ou ainda poderia, ao som de mil compassos, acalentar minha angelical criança por meio de nossa dança macia (que é um transe íntimo de nós com o útero da Mãe Terra).

Em seguida estaria eu novamente entregue à mistura: cheiro das plantações em flor, chão molhado de chuva, o suave hálito da noite e o cheiro de nossos próprios corpos; mais do que medicinal é o cheiro de meu amado, capaz de acordar um turbilhão de sensações dentro de mim e assim fazer, entre tantas reverberações, desabrochar uma nova mulher que acaba de nascer...

Em paz.

Descanso meus cílios sobre aquele dorso quente, chocolate.

O sorriso é um paraíso que desejo sempre e o quanto é possível.

Sinto, Branquinha de Leite, neste momento que a ausência dele ou dela, seria no peito enorme buraco negro em chamas, alastrando como devastadoramente, querendo roubar-me a vida, querendo escurecer as minhas mais preciosas lembranças. Vou esmilinguindo-me, acabando-me...

É então que de repente resolvo ganhar forças e percebo que são os mais lindos presentes de Deus em minha vida! São pura Vida em mim, ainda que ausentes.

Faz-se de súbito então em meu peito campo verde. E é Aurora Boreal aqui dentro, em nosso lar...

...Que começa sempre no sagrado do que há de dentro pra fora!

Só agora eu sei, era cega e não sabia.

Não há mais cacos de vidro em meu sangue, nem há um dobermann raivoso correndo em minhas veias.

Sou passarinho, sou ninho, sou retorno pra casa quando recebo o tão esperado abraço, minha alma agora é retorno, um chá de Melissa e Alecrim sem abismo.

Meus olhos transbordam e refletem o brilho que emprestam de ti.
 

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