Sete dias com Marylin

Por: Sônia Machiavelli

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Ao assistir às cenas de Michelle Williams como Marylin Monroe em Sete dias com Marylin ( 2011), o espectador com algum conhecimento sobre a atriz precocemente falecida pode ficar duplamente impressionado. Primeiro com a interpretação de Michelle, premiada com o Globo de Ouro pelo desempenho impecável. Segundo, com a maneira pela qual o diretor resolveu apresentar Monroe: errando falas, profundamente melancólica e assustada, demonstrando insegurança e desconfiança o tempo todo das filmagens de O Príncipe e a Corista ( 1957). Fixa-se assim a percepção equivocada de que MM era ainda uma iniciante que se sentia desconfortável sob a direção do monstro sagrado do teatro, Sir Laurence Olivier (Kenneth Brannagh), com quem também contracenava, e pela primeira vez na Inglaterra, onde ele gozava de prestígio imenso. A realidade não era bem essa.

Em 1957 Marilyn já fizera sete grandes filmes como protagonista, sendo dirigida por diretores considerados geniais, como Howard Hawks, Otto Preminger, Billy Wilder e Joshua Logan. Antes da engraçada e quase inconsequente Elsie por quem o príncipe da Carpácia se apaixona, ela tinha mergulhado em papéis sombrios como o da Kay Weston de O rio das almas perdidas, e cômicos, como o da garota sem nome de O pecado mora ao lado (na verdade, em cima), onde imortalizou a cena do vestido esvoaçante no respiradouro do metrô de Nova York. Essa imagem iria dar a volta ao mundo e se tornar metafórica pelo que representou de liberdade, erotismo e feminilidade.

Tem mais. Naquele momento inglês, MM estava a caminho de desempenhar os papéis que a revelariam definitivamente como atriz versátil , capaz de mobilizar riso e lágrimas. Quanto mais quente, melhor; Adorável pecadora e Os desajustados se inscreveriam nos anais dos filmes tornados clássicos, portanto imorredouros. Deixaria inacabado Something’s Got to Give, sob direção de outro cineasta renomado: George Cukor. Marilyn tinha 36 anos ao morrer em agosto de 1962 e fizera ao todo 30 filmes que até hoje são vistos com interesse e onde ela não deixa dúvidas sobre seu perfil de ícone de beleza e sensualidade.

Então, é de se entender a sensação de estranhamento de muitos ao encontrar na tela uma Marilyn absurdamente incompetente, incapaz de decorar um diálogo de vinte palavras, como se sofresse de algum retardo ou outro problema mental. Talvez a explicação fique por conta do ponto de vista de Colin Clark (Eddie Redmayne), jovem provinciano que ao buscar o sucesso na indústria do cinema, encontra trabalho como assistente no set de O Príncipe e a Corista. Tendo convivido com a atriz nos estúdios londrinos, escreveu dois livros sobre sua experiência “deliciosa”: um de memórias, outro no gênero diário. É da fusão dos dois que nasceu o filme. Em ambos Colin conta como conseguira o emprego que lhe mudaria a vida e de que forma se tornara íntimo de Marylin por sete dias, na ausência do marido, o dramaturgo Arthur Miller. E é por aí que Michelle Williams pode dar vazão a seu imenso talento, com todo espaço e tempo à disposição, posto que o roteiro é pobre e não consegue dar fôlego à história, que gira sobre um único motivo: a inadequação de Marilyn Monroe aos sets; ou ao mundo no qual escolhera viver.

Assim, o filme vale pelo desempenho de Williams e por alguns elementos dispersos que o olhar da câmera captura para conferir um sentido menos raso. O Ulysses de Joyce sobre o criado mudo, com certeza leitura do marido ; o retrato de Abraham Lincoln ocupando o lugar que seria do pai da atriz; a foto da mãe que morrera num hospício, mas lhe dera um piano branco de presente antes de ser internada em surto do qual nunca mais saiu; os comprimidos para dormir, acordar, alegrar, acalmar (e também matar, a se supor verdadeiro seu atestado de óbito); o grupo de pessoas manipuladoras que a acompanhavam, como a segunda mulher de Lee Strasberg, Paula. E o método de representar criado pelo casal Strasberg, mencionado nos diálogos e seguido, entre outros, pela própria Marilyn Monroe e outros famosos. Esse método propunha ao ator “uma performance dentro da performance”. Para que Elsie, personagem de Marilyn, se descontraísse e conseguisse sorrir, Paula a aconselha a pensar em Coca-Cola e Frank Sinatra, o que nos autoriza a supor que lhe eram estímulos deflagradores de alegria.

Sete dias com Marylin não é o recorte biográfico que talvez tenha se pretendido, mas o ponto de vista de um jovem seduzido por um mito muito complicado. Diante do que poderia ter sido, o filme ficou menor. Mas não pequeno, ressalte-se a bem da verdade.

SERVIÇO
Título: Sete dias com Marylin
Ano: 2011
Diretor: Simon Curtis
Gênero: Biografia
Onde: nas locadoras

Boas Parcerias

Clark & Curtis/ Hodges & Michelle
Sete dias com Marylin é um filme que só aconteceu por causa do livro do documentarista inglês Colin Clark, que em 1995 resolveu resgatar episódio de 1957 de sua biografia, ou seja, o período em que trabalhou como assistente de direção do filme O Príncipe e a Corista, com Laurence Olivier e Marylin Monroe. Em 2000, dois antes de sua morte, publicou Minha semana com Marylin, um tipo de diário onde também relembrou as filmagens do clássico, mas enfatizando um romance que havia tido com a atriz norte-americana. Os dois livros tiveram boa acolhida e caíram, algum tempo depois, nas mãos de Simon Curtis, diretor que já tinha no currículo diversos trabalhos produzidos para a televisão britânica, dois deles bastante conhecidos - Spetacular e Freezing. Desde a primeira leitura, Simon ficou interessado em levar para a tela a história do jovem assistente que mantivera um relacionamento amoroso com MM na semana em que o marido dela, o célebre dramaturgo Arthur Miller, se afastara dos sets londrinos de filmagem e voltara aos EUA por não se sentir à vontade no meio. Mas foi necessário que o roteirista Adrian Hodges, que havia construído, como Simon, sua carreira na televisão, também se entusiasmasse para que o filme começasse a ser pensado como obra concreta. O grande desafio era encontrar uma atriz que pudesse interpretar Marylin Monroe, aquela que “quando entrava em cena, não tinha para mais ninguém”, ainda que fosse “ menos deslumbrante que Ava Gardner, menos platinada que Jean Harlow, menos dançarina que Audrey Hepburn, e de olhos não tão belos como os de Elizabeth Taylor”. Mas tinha o que os franceses chamam de um je-ne-sais-quoi e os de língua inglesa, um it.

Michele Williams foi o nome escolhido. Não haveria outro melhor. (SM)
 

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