Mendigos

Por: Maria Luiza Salomão

A globalização tem produzido fenômenos inéditos e complexos. Nasci em uma cidadezinha do interior. Naquela época, uma criança de classe média, como eu, podia conviver com pessoas de muitas classes sociais. Temos convivido fechados em guetos, tribos, clãs, seitas (assim percebo), apesar da falsa ilusão de estarmos todos conectados, via as modernas mídias. Eu mantinha contato com os mendigos que dormiam em bancos e esmolavam basicamente comida. Um ou outro mendigo me era tão conhecido quanto o dono do armazém, o vendedor de picolés do meu Grupo Escolar. Os mendigos foram tema de primeiras reflexões que tive, quando menina, deixando-me triste e intrigada.

Os mendigos da minha cidade tinham nome e algumas pessoas lhes levavam comida e cobertores em épocas de maior frio. Nas capitais, os mendigos me pareciam mais mendigos do que os mendigos da minha cidadezinha e eram quase invisíveis.

Entre uma primeira visita à Europa, 20 anos atrás, e outra que fiz, no ano passado, identifiquei diferenças, em número e grau, entre os mendigos. Um dia, sofri um impacto doloroso. Em algumas esquinas de Roma, Milão, Firenze, Veneza (mas não na Toscana, nas pequenas cidades medievais) avistei uma figura, imóvel, na calçada. Um mendigo, sentado e dobrado sobre suas coxas, testa tocando o chão, completamente envolvido em panos escuros, corpo e a cabeça cobertos. Na frente da testa que relava o chão, em atitude iogue, ele (a) tinha uma mão estendida (não se via o seu rosto). Da trouxa de panos rotos e sujos, surgia a palma da sua mão, uma concha de carne aberta ao mundo, a única pele exposta de um ser que não se permitia ser visto. A palma da mão direita. Quase ninguém olhava o ser. As pessoas passavam, como se passassem por uma estátua.

Lembro-me que andei muito tempo ao lado do meu marido, sem falar uma palavra. Ele também guardava um silêncio estarrecido. Aquela postura corporal dos mendigos me produziu uma trovoada íntima. Quando eu via aquela mão-concha na calçada, em meio àquela pilha de roupas, eu me sentia espremida, perdendo espaço dentro de mim.

Quem eram esses mendigos? Turcos, árabes, muçulmanos, libaneses? Italianos? Nosso planeta se “unifica”, em termos de comunicação e mercado, mas vemos multiplicar seres sem raízes, sem origem e sem destino, vagando pelos continentes... sem terra, sem morada, sem sossego, falando uma língua estrangeira a ouvidos moucos.

Ao chegar ao hotel, reproduzi aquela postura, dobrada em mim, a lamber o chão, a mão estendida. Algo visceral me informou que é possível chegar ao avesso do humano, sem rosto, sem nome, sem abrigo, sem paz.
 

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