Outra mãe, outro filho

Por: Claudia Filipin

E de tanto levar porrada, sucessivas e incessantes porradas, ela se curvou de medo. De tudo.

Da meia idade, das meias-verdades, das doenças da alma e do corpo. Do crescimento dos filhos e de suas poderosas asas. Da solidão e seus murmúrios. Dos amigos que se foram e não voltaram. Do IPTU, das faturas do cartão, da prestação do apartamento.

Nas dificuldades inerentes ao exercício de viver e sobreviver, passou a comer sem saborear, a dormir sem descansar, a trabalhar pela grana, a ler literatura descartável, a cantar ‘ai se eu te pego’. Se rendeu ao facebook, simulando uma outra vida. Que não tinha.

Ficou amarga. Centrada demais na realidade que a cercava, perdeu a leveza que deveria possuir, a esperança que deveria cultivar, a confiança que deveria ter para com os seus. Já não era mais altruísta, crente, brincalhona, descabelada. Já não era mais descabelada.

O filho não a reconheceu quando voltou da faculdade para as férias de janeiro. Com ela aconteceu o mesmo: quem era aquela criança?.

Aos olhos da mulher, apesar de ainda forte corpo e alma- o menino mudara muito. Seis meses distante, e ele tinha se transformado em um de seus maiores pesadelos. Estava , arrogante, sonolento, rendido a um tipo ‘bem viver’ que ela sempre abominou. E agora mais. Além disso, veio com discursos de esquerda, com meias furadas, com aqueles olhos de perigosa utopia.

Não foi diferente com o moleque:sentiu uma repulsa esquisita na convivência com aquela quase senhora. Antes antenada a músicas, cinema, literatura, agora não perdia capítulo da novela das nove. Dava broncas absurdas por, do seu ponto de vista, mínimas coisas: louças não lavadas, roupas espalhadas, luzes acesas em cômodos não ocupados, o fato dele ter desenvolvido o hábito de dormir nu.

A mãe transformou-se num serzinho mesquinho, reclamão, implicante. A pele que a habitava era a mesma de dezenas de pessoa ‘classe média’ que ele bem conhecia e pelos quais nutria profundo desprezo.

O único minuto de intimidade que puderam compartilhar foi justamente na hora de fazer as malas, para o retorno.. Ele levou parte do espólio da velha: Hemingway, Zola, Garcia Marques, Bandeira, e mais alguns. A mala voltou estourando, de livros e afetos. Foi desejo da mulher deixar com ele essa parte dela, aparentemente adormecida. Ele agradeceu em silêncio, entreolharam-se e era isso que mais desejavam: não falar.

Eram outra mãe, outro filho. Havia amor, estava claro. Mas porque quedavam, os dois, em pedaços, tão estilhaçados? Quem sabe, no futuro, um mosaico...
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras