A permuta continua

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Ainda é começo de primavera, mas o calor intenso prenuncia verão digno de diabinhos ao redor de fogueira. Passa pouco das dez horas, e as pessoas já procuram a sombra das marquises, ou das sibipirunas, abarrotando os bancos espalhados sob suas copas.

Horário e temperatura fazem mais inusitadas as vestimentas do homem que cruza, com passos trôpegos, a Praça Barão da Franca. Somente o chapéu Panamá roto e a bengala claudicante parecem adequados à teimosia do homem enfrentando o sol que braseia todas as colinas. Destoam muito a camisa social, o terno branco, a gravata escura.

O toc-toc da bengala nas pedras do calçamento é interrompido quando o corpo magro que nela se apoia escuta chamado.

– Sô Chico Franco! Oi Sô Chico!


Nos olhos do velho o que há é opacidade de outono. Assim, move a cabeça em várias direções, procurando a procedência do chamado.

– Hei

— Hem? O quê ?

– Aqui, Sô Chico.

O homem velho dá dois passos em direção à voz, os vultos adquirem formas mais ou menos definidas, caminha em direção a elas.

– Bom dia, Sô Chico. Como vai?

– Vou bem, obrigado... Mas o jovem pode me fazer a gentileza de revelar a sua graça? Desculpe, não estou reconhecendo...

– Sou eu, Sô Chico. O Nenê Bittar. Não fala que o senhor não lembra mais da gente.

– Nossa, é mesmo. Me perdoe, menino Nenê. É culpa da vista, ela está indo embora. Cada dia está mais fraca. Peço que me perdoe.

– Ora, Sô Chico. É que faz muito tempo que a gente não se encontra.

– É mesmo. Bem que eu tenho procurado a Casa Única, lá na Praça Nove de Julho, mas eu não acho, parece até que estou ficando desorientado.

– Não, não está não, Sô Chico. A Casa Única mudou de lugar.

A explicação é dada pela pessoa ao lado, também de chapéu.

– Qual é a graça do rapaz?

Ah, deixa eu mostrar pro senhor, Sô Chico. O senhor vai lembrar deles: este é o Tião Barcelos...

– Ah, o doutor Sebastião, o gerente do banco.

– Era, Sô Chico. Agora estou aposentado... igual ao senhor.

– Este aqui é o Luiz Vilela, este é o Serginho Ewbank, este é o Elzio Garcia...

– E cadê o Zé Tatu, que estava sempre com vocês?

– O Zé viajou, Sô Chico. Viajou pra longe. Agora ninguém escuta mais o seu violão.

O homem velho não percebe o embargo na voz do Nenê Bittar, não capta a acepção do viajar, por isso continua alegre.

-Ah, quem diria que eu já vi vocês todos sentados no chão, trocando figurinha... O menino Nenê ainda coleciona álbum de figurinha de jogador de futebol?

Há um tom de melancolia na voz do doutor Sebastião quando se antecipa ao Nenê, sintetiza o pensamento do grupo.

– Agora a gente só troca bula de remédio, Sô Chico.

 O entusiasmo de Chico Franco impede que o detrás das palavras alcance a razão fragilizada por mais de oitenta anos. Só interroga.

– E qual é a graça dos meninos do outro banco?

– Ali estão o Sibila, o Ari Martins... Eles ficam o dia inteiro discutindo sobre disco voador. O Senhor acredita em disco voador, Sô Chico?

– Ah, menino Nenê. Quando o avô do meu pai falou que um dia o carro ia andar sem precisar de boi para puxar, todo mundo falou que ele tinha ficado doido. Agora, o menino veja: o carro anda nas ruas, nas estradas... O homem voa pra tudo quanto é lugar. Então, menino, nesse mundo de Deus eu não descreio de mais nada não.

O homem velho interrompe a fala e se despede.

– Eu tenho que ir. Está quase na hora do almoço, e eu moro longe. Minha casa fica depois dos trilhos da Mogiana.

– Espere, Sô Chico. Meu carro está aqui perto, eu levo o senhor.

– Fico agradecido, muito agradecido, mas eu preciso caminhar. O coração do homem está nas pernas...

Nenê entende que não adianta insistir, por isso, ele e os demais se despedem do homem velho e ficam, por instantes, a ouvir o toc-toc da bengala que caminha em direção à Rua General Teles e desaparece no burburinho da cidade que fica, cada vez mais, cidade grande.
 

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