Eu posso

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

A oportunidade surgiu e fui visitá-lo. Encontrei-o na cozinha, fazendo um bolo, com a batedeira ligada, esperando a consistência ideal para colocar o pó Royal que daria leveza à massa. Com orgulho, repetia a frase de seu avô: “tudo que um homem pode fazer, eu também posso”. Lembrei-me do presidente norte americano, Obama, com seu “we can”, quando ele acrescentou, sorrindo, “e algumas coisas que as mulheres podem fazer como bolos, sucos e doces.” Para me convencer de que entendia do assunto, explicou-me que a elaboração de bolos existe desde o Egito Antigo, na forma de pães adoçados com xarope de frutas e passas. Os antigos gregos e romanos o aperfeiçoaram. Em meio à fala, colocou o bolo em forma untada e levou ao forno. Sentamos, então, à mesa, coberta com uma toalha novíssima, verde com arabescos brancos que por si anunciava agradáveis momentos. Louças e talheres, colocados com capricho por sua mulher, guardanapos e café coado na hora. Este era especial, pois os grãos tinham sido colhidos, especialmente para uso doméstico, torrados e moídos, mantendo o sabor puro do verdadeiro café, riqueza tropical que faz parte da história do nosso país. O centro da mesa estava vazio, apenas um apoio esperava a forma do bolo cujo aroma rescendia pela casa toda. A conversa ia animada ,quando ele se levanta, dirigindo-se ao forno. Retira a forma com dois aparadores e caminha entusiasmado em direção à mesa, segurando-a como um troféu, comemorando a vitória, pois o bolo dobrara de tamanho e ganhara uma cor dourada. Ao colocá-lo no meio da mesa, desequilibra-se e a forma vira sobre ela. Rapidamente desvirada, felizmente, só alguns pedaços se desprenderam, ainda fumegantes e ficaram sobre a toalha. O restante estava salvo e foi saboreado avidamente, entre elogios e pedidos de receita. Ele reconheceu que ainda não está tão prático como as mulheres que fazem bolos desde criança, mas que pode fazer, ah, isso pode.
 

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