Dia de chuva

Por: Heloisa Pereira de Paula Reis

Domingo. Dia chuvoso. As crianças chegam molhadas pela chuva, encharcadas até a alma. Um sorrisinho maroto, meio que sem jeito, a esperar meu “blá, blá, blá” de sempre. Olho para elas e fico nervosa, preocupada. Tenho receio de que fiquem doentes. Mas desta vez não falo nada. De que adianta, já estão molhadas mesmo... Percebo entre elas um olhar de: “será que a bronca não vem?” Faço com que tomem um banho bem quente e se agasalhem, enquanto preparo um chocolate bem gostoso e quentinho. Enquanto vão se servindo do chocolate, seco o cabelo das três ao mesmo tempo. Pareço uma máquina. Riem baixinho a cutucar-se. Finjo não ver e não ouvir. Melhor assim. Criançada sem juízo. Não pensam em nada, eu tenho que estar atenta a tudo.

Puxa vida... Faz tanto tempo que isso aconteceu, mas para mim parece que foi hoje. Lágrimas de saudade escorrem pelo meu rosto. Uma saudade gostosa...

Já faz um bom tempo que acordei, acostumada que estou com o despertador a chamar-me às seis horas. Fico a rolar preguiçosamente na cama. A chuva bate forte na janela do meu quarto. Parece que o mundo vai acabar. Chove a cântaros. Nada de trovões, nem relâmpagos.

Volto no tempo e me vejo criança. A criança que já fui e que permanece em mim cobrando que eu realize os meus desejos insatisfeitos. E ela se manifesta exigente. Coloca-me num beco sem saída e eu começo a sentir uma vontade imensa de andar na chuva, como sempre desejei e nunca fiz. Essa criança simbólica, que carrega a imagem ideal da infância que eu gostaria de ter tido, o registro de minhas experiências, de meus prazeres, frustrações. É a possibilidade de renascimento que existe em mim. Dou asas a ela...

Saio da cama, dou um jeito no esqueleto, faço minha higiene pessoal, meio que sem vontade. Chatice... Nenhuma criança gosta. E se gosta eu não sei. Não me contaram. E se contaram esqueci.

Abro a porta da sala e aí libero minha criança interior, essa criança curiosa, alegre, brincalhona, exuberante, que sai saltitante, feliz.

Olho então para os lados...

– Ninguém na rua, “nem minha mãe está por perto”. Como se possível fosse. Por um tempo penso em mim, a olhar a chuva pela janela, segurando nas grades que dentro de casa me prendiam... Logo a seguir me aventuro na chuva, para viver minhas fantasias, meus desejos infantis reprimidos.

Paro debaixo de uma árvore que enfeita o jardim de minha casa. Ela compactua comigo. Seguro seus galhos com as mãos e os aproximo o mais possível do chão. Depois... Depois os solto com força e então toda a água da chuva que nela estava cai em mim.

Lá estou eu, criança novamente, sem ser reprimida por ninguém, em minha fantasia... A seguir abro o portão e saio, andando bem devagar, sem receio de molhar-me mais. Molhar-me como nunca o fiz. Quero sentir os pingos da chuva em mim, a roupa colar em meu corpo. E daí? Por que não essa sensação gostosa de liberdade, de maravilhamento? Ninguém a me repreender. Nem eu.

Meus sapatos estão pra lá de encharcados. Resolvo tirá-los e jogá-los para o alto. E não é que eles caem na enxurrada? Rio a mais não poder. Rio pelo passado, em que não pude agir assim e pelo presente que estou vivenciando. Do presente que dei a mim.

Sigo em frente, sem desviar sequer de uma poça d’água. Como sempre eu quis fazer e não pude, não devia. Estou livre, sem ter aquele sentimento de inadequação, de isso você pode e isso você não pode. Quantas “artes” reprimidas e todas elas inerentes à criança que fomos e sempre seremos... A água da chuva lavou e tirou de mim, o não pode, o não deve, o excesso de responsabilidade, o abaixar a cabeça, o não saber dizer não, o conformismo, o indiferentismo pelas coisas da vida, o receio de ousar, de ser diferente... E me deixou pronta para eu ser eu mesma. Criança, que uma vez liberada... Ah! criança, nunca se vá de mim...

Atravesso a rua correndo, sem medo do aguaceiro que desce numa velocidade danada. Corro de um lado para outro, sem me importar com o que possam pensar.

Os carros passam e deliberadamente jogam água em mim e isso me faz feliz, criança que sou. Os motoristas riem, pensando que foram tão engraçados. Pobres coitados. A graça maior foi para mim.

Aos poucos a chuva vai diminuindo, até cessar completamente.

E aí... E aí, volto para casa feliz, realizada. Eu e minha criança interior, numa feliz cumplicidade.

Ainda dará tempo para um banho quente, secar meus cabelos e tomar um chocolate quentinho, antes que todos cheguem, para mais um almoço de domingo...

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