A boa notícia

Por: Téo Lopes

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Sabem quem foi o Dudo?

Era um menino que não gostava de aparências, de cascas, de embalagens, de leis, de regras, de padrões... Não gostava das linhas que escravizam as pipas, nem dos aquários que encarceram os rios.

À noite, quando o céu ficava todo orgulhoso de suas estrelas, ele sabia que existiam muitos astrônomos estudando o universo naquele momento, descobrindo galáxias, forçando desenhos estranhos para chamarem de constelações. Mas ele apenas deitava de costas no chão e ficava admirando estrelas a granel.

Foi esse menino, o Dudo, que uma garotinha procurou no meio de uma tarde despretensiosa, com um envelope na mão e uns olhinhos tão leves que se caíssem no chão fariam apenas plim:

– Por favor, entregue essa carta ao Sr. Eduardo Costa de Assis.

Ela falara com uma autoridade não condizente com sua idade. Dudo permaneceu em posição de espera.

– Você precisa se lembrar de um detalhe importantíssimo. Essa é uma boa notícia. E uma boa notícia só pode ser entregue por boas mãos.

Puxou o garoto pra perto e sussurrou no seu ouvido.

– O Sr. Eduardo precisa receber essa carta. O mais rápido possível.

A voz dela era gelada. Gelada e doce. Dudo saiu correndo para cumprir sua tarefa com as palavras da menina derretendo feito sorvete na sua orelha.

Durante dias andou muito por toda a cidade, mas o endereço escrito na carta simplesmente não existia. A rua, e até mesmo o bairro indicados no envelope eram nomes totalmente desconhecidos por todos. Desolado e cansado, estava a ponto de desistir quando se lembrou do que a menina dissera, de que uma boa notícia precisava de boas mãos.

Dudo saiu caminhando pelas ruas da cidade, necessitando de ser bom. Nesse dia, viu um mendigo misturado com uma calçada. Ele se aproximou, receoso, e resolveu tocar aquele homem. Nessa hora, descobriu uma coisa. Que ele estava tocando em uma pessoa. Apesar dos desenhos forçados que a sociedade criava, inventando novas constelações, como por exemplo a constelação dos miseráveis, ou a constelação dos excluídos, e também a grande constelação dos irrecuperáveis, apesar disso, aquele mendigo era, antes de tudo, uma pessoa.

Quando a criança tocou no adulto, se transformaram automaticamente em pessoas sem rótulos, sem embalagens, e por instantes romperam as linhas que os impediam de voar, quebraram os vidros que paralisavam seus rios.

O menino tinha descoberto sua vocação. Tocar as pessoas, acolhê-las, curá-las. Sempre carregando a carta, o tempo foi passando. A carta saiu da mão, foi para o bolso da bermuda, depois para o bolso da calça, passou para o bolso do jaleco que ele usou no hospital durante muitos anos, e onde pensou ter visto, algumas vezes, aquela garota que lhe entregara a carta e que, claro, não era mais uma garotinha, mas uma mulher que envelhecia na mesma velocidade que ele. Pensou ter visto ela também virando alguma esquina dos vários caminhos que ele percorria, ás vezes tarde da noite, sempre procurando pessoas para redesenhá-las, usando suas boas mãos para curar, para transformar, para reiventar, ou para, simplesmente, transmitir calor numa madrugada fria.

Já com a idade avançada, seus filhos e netos compraram uma nova casa para ele morar. Quando foi conhecer seu novo lar, Dudo não pode conter uma forte emoção. Era exatamente o endereço contido na carta. Perguntou para os filhos quem era o antigo morador. Eles disseram que a casa era recém construída, ninguém morara nela.

Dudo entrou na casa pela primeira vez, sozinho, aos 94 anos de idade. Na grande sala, diante de um espelho, encontrou-se finalmente com o Sr. Eduardo Costa de Assis.

Passara a vida toda tão preocupado com as outras pessoas que se esquecera até do próprio nome. A carta que carregara durante tantas décadas, era para ele.

Abriu o envelope sem disfarçar o tremor de suas boas mãos. A mensagem era bem simples, escrita com uma bonita caligrafia de menina:

“Sua morte está próxima.”

Não se assustou. Aprendera que morte e vida eram apenas nomes, desenhos forçados, embalagens diferentes para a mesma substância.

Escutou baterem na porta. Andando com muita dificuldade, foi ver quem era. E era ela, a garotinha, agora uma velha como ele. Vestia-se toda de preto e tinha cheiro de terra embaixo de terra. Com coragem e uma paz imensa que lhe invadiu todo o corpo, apertou as mãos daquela que viera lhe buscar, e, encarando-a face a face, pode ver os olhinhos mais azuis, infantis e infinitos que poderiam existir.

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