O pote precioso

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

190142

João Glória nasceu ao pé de uma elevação da serra da Canastra, numa tapera de pau a pique, sem nenhum recurso, circundado de pura natureza, no meio de uma vegetação intocada, de perfume inebriante, aonde chegavam, junto com a noite, uivos de lobos, roncos de onça, guinchos de macacos. Tinha ao seu lado o Córrego das Pedras, pouco conhecido, de difícil acesso que, também, nascera ali, mas ao contrário dele, era rico em areias auríferas e cascalhos diamantíferos. Recebeu o nome Glória em louvação ao seu nascimento, considerado por sua frágil mãe algo maravilhoso. Embora isolados, cresceu feliz, aprendeu a ler e a escrever, criado pelos pais, dentro do rio, com as calças arregaçadas e uma bateia na mão, primeiro uma pequena, depois a grande que seu pai lhe dera, quando já não podia mais garimpar. A vasilha afunilada de madeira, em que se lavam os cascalhos para se encontrar ouro e pedras preciosas, tinha ficado pesada para as mãos daquele pobre homem. Vivia do que achava no rio. Oferecia pequenas pedras aos fazendeiros vizinhos que as compravam e, depois de lapidadas, transformavam-se em lindas joias. Quando ia ao povoado fazer compras, João Glória era reconhecido pelas calças que se gastavam na parte superior e permaneciam conservadas nas pernas por ficarem dobradas. Andava, sempre, com vários cachorros e com eles dormia, quando se cansava, no caminho de volta à montanha. Era querido por todos e gentil, principalmente com as crianças, que corriam atrás daquela figura exótica.

Morando sozinho, pois nunca se casara, João Glória continuou a garimpar e, certa vez, mostrou a seu padrinho, o coronel Anastácio, dono de todas aquelas terras, um pote de barro, pequeno, cheio de pepitas de ouro e pedras preciosas brutas, mas que já resplendiam sua beleza extrema. Impressionado, ele nunca se esqueceu daquela imagem. Após a morte do garimpeiro, procuraram pelo pote precioso, mas nada encontraram. Diziam os mais velhos que ele estava enterrado, perto da cachoeira, guardado por uma serpente horrível que afastava as pessoas.

Um neto de Anastácio, tendo herdado aquela parte das terras, lembrou-se da história que seu avô lhe contara quando criança e, ao realizar obras no local, com uma escavadeira, procurou, sob as ruínas do casebre abandonado, o pote precioso. Em pouco tempo encontrou-o, do mesmo jeito que ouvira falar. Ávido de curiosidade, tão logo o teve em suas mãos, abriu-o e só viu areia a qual despejou no chão. Para seu espanto deparou-se com um saquinho plástico contendo um papel. Nele estava escrito: “o rio me deu, ao rio devolvi. João Glória”.

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