Desafios: saboroso alimento

Por: Jane Mahalem do Amaral

Minha fome é simples e pobre. E mesmo assim não sei buscar meu alimento. Procuro inventar comidas diferentes, na expectativa de que serei saciada, mas volto sempre à antiga pobreza faminta.

Por onde tenho eu andado nessa busca? Penso que vou me atrapalhando pelos caminhos e confundindo minhas estradas. Com bastante frequência, aquilo que alimenta o meu espírito é o que me coloca face a face com as minhas maiores limitações e dificuldades. Mas como reconhecer isso como alimento, pois justo nessa hora é que eu rejeito essa comida, quase sempre maldizendo-a...

Aprendi que nas adversidades eu deveria sempre lutar contra elas. Mas um amigo me disse outro dia: “Não, não lute contra. Aprenda a dançar com”. Seria possível dançar com a dor, ou com a doença, ou com a perda? Seria normal sorrir para a solidão, livrar-se do vício ou compreender o medo?

Quase sempre tenho duas atitudes: lamentação vazia, ou revolta vestida de vítima. E lá vou eu em busca de falsas comidas: quero alguém que me ouça e me confirme que estou muito sofrida mesmo, ou quero me livrar o mais rapidamente daquela injusta situação que, na maioria das vezes, acho que não sou merecedora.

O índio Dom Juan de Carlos Castaneda, nos ensina no seu Caminho do Conhecimento que “ um guerreiro espiritual não pode queixar-se ou arrepender-se de coisa alguma. Sua vida é um desafio sem fim e é impossível afirmar que um desafio seja bom ou mau. Desafios são apenas desafios”.

Essa é a grande conquista da liberdade: ser capaz de trabalhar com qualquer energia ou dificuldade que venha a surgir. Entrar sabiamente em todos os domínios desse mundo, domínios belos e dolorosos, reinos de guerra e reinos de paz.

Tenho aprendido nessa caminhada que realmente não adianta negar os fatos, pois ao reprimi-los quase sempre ganho problemas no corpo e minha mente ficará agitada ou rígida, cheia dos medos que não enfrentei. Também nenhum bem me fará em ventilar livremente meus sentimentos, pois cada sentimento que aflora, junto com ele vão todas as minhas aversões, opiniões, agitações e reações habituais que irão crescendo até se tornarem cansativas, dolorosas, confusas, contraditórias e, finalmente, dominantes.

O que me resta é seguir a terceira rota confiar no poder do coração desperto e atento. Essa força do coração surge do conhecimento de que a dor que cada um de nós precisa suportar é parte da dor maior compartilhada por todas as coisas vivas. Ela não é apenas a “nossa” dor, mas “a” dor. Perceber essa verdade desperta nossa compaixão universal e faz ver os desafios como amigos. É esse espírito que permite ao Dalai Lama referir-se aos comunistas chineses que ocuparam e destruíram o Tibete como “meus amigos, o inimigo”.

Minha tendência é só ambicionar a saciedade e me livrar da fome. Mas só depois de muito comer alimentos pesados é que percebo que me sentiria muito bem com o frugal. Posso me alimentar das sementes de sabedoria que estão contidas em cada uma das minhas dificuldades. Posso olhar para os meus desafios e sentir neles o gosto do sal e do doce, do amargo e do azedo, do mel e do fel e, ainda assim, saboreá-los sem julgamento.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras