Sussuarões

Por: Luiz Cruz de Oliveira

191594

Parece-me que foi ontem.

Ontem, não. Mas parece que foi há dois meses ou há dois anos. Dois anos... Talvez seja exagero. A verdade, porém, é que me parece ter passado tão pouco tempo. Lembro-me de tudo com tamanha nitidez a realidade me assombra.

É... parece que foi ontem, e, no entanto, três décadas já se passaram.

O meu retrato apareceu acho que pela primeira vez no jornal Comércio da Franca, edição de quinta-feira, 24 de julho de 1980. Ao lado e abaixo da foto, vinha a notícia de que meu romance Sussuarões fora classificado em primeiro lugar em concurso promovido pela Fundação Municipal Mário de Andrade, de Franca. Lembro-me de que vibrei como menino que defende pênalti em jogo da escola. Recebi, durante uma semana, cumprimentos de colegas de trabalho, de amigos, de desconhecidos que me paravam na rua, comentando o feito.

Valorizei deveras a premiação quando os jurados saíram do anonimato. Mais tarde, quando deles me aproximei, tornamo-nos amigos. Foram eles: Josapaht Guimarães França - poeta francano laureado pela Academia Brasileira de Letras, cronista e poeta de uma vida inteira; e Caio Porfírio Carneiro - detentor do prêmio Jabuti, autor de livros traduzidos para diversas línguas e vertido para o cinema, e ainda hoje, sem dúvida, um dos maiores contistas vivos do país.

Com a alma perto do céu, recebi a premiação e os cumprimentos efusivos, mas não dispunha de recursos para financiar a edição do livro. Somente em 1982, com a ajuda de amigos, inclusive do Marco Antônio Russi, que elaborou a capa, editei-o na Sociedade Impressora Panartz Ltda., da capital paulista, que ainda utilizava o sistema de linotipo.

Trinta anos passaram muito depressa, e o amigo Luiz Yamashita fez alerta.

- Faz trinta anos que você publicou o Sussusarões, precisa comemorar.

Primeiramente levei susto. Parecia que foi ontem que tudo acontecera. Depois, inundaram-me as incertezas.

Muitas razões desaconselhavam uma reedição. Dentre elas, reconhecia os erros e defeitos formais e a indefinição de um estilo cujos titubeios é impossível disfarçar.

A favor de nova tiragem pesava sobretudo o fato de, ao emprestar e não receber de volta os últimos exemplares, agora tenho de recorrer a amigos quando necessito realizar alguma consulta a meu próprio livro. Considerei ainda o fato de este livro ter sido, senão a primeira, uma das primeiras a focalizar o que foi a chamada Revolução Militar de 1964 numa cidade de interior. Pesou ainda fortemente o fato de Sussuarões ter sido o primeiro passo dado por mim no sentido de criar um romance sintético, onde o épico estivesse reduzido ao mínimo, substituído por um lirismo intenso.

Decisão tomada, achei por bem conservar integralmente a edição original, com todas as suas imperfeições formais e, principalmente, com as inseguranças explícitas de quem buscava um estilo (e continua insistindo nisso). Assim, a única mudança ocorrida verificou-se na atualização ortográfica.

Espero que a reedição possa resultar auxílio a quem deseja palmilhar os caminhos da história da literatura francana.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras