De onde vêm

Por: Débora Menegoti

Vêm do nada? Não; vêm do imenso dentro de mim, o devastado, o florido, a amplidão do verde aqui dentro... Das marcas tristes dos quadros de Frida Kahlo, nossas cicatrizes, de Gardel, Piazzola, Raduan Nassar, tampinhas coloridas, roupas infantis, vem de autores que gosto, vem de seringueiras e nossas bolinhas saltitantes do látex branco escorrido no braço, ora essas bestinhas me aparecem até mesmo com cheiro de arnica, me assaltam em cores de águas em pencas caindo, agindo nas pedras ou escorrendo entre elas, me lembrando de que “liberdade é isto... É achar um meio”! (Como diria Manoel de Barros!)

Vêm do imenso azul... De vidas passadas, do etílico blues em rendinhas, sabores e cheiro carmesim, vêm de sorrisos de açucenas e afloram...

Assim! Simples! Até irritantes.

Mas não vêm bem do nada não.

São muitas horas vendo formiga preta carregando folhas e esperando a borboleta se libertar do casulo, são dias e dias passados muito mais sobre árvores que no chão, são dias de esconderijo e de solidão... São dias alaranjados de Adélia Prado, do feminino, do amargo... Misturo tudo... Elas me misturaram irreversivelmente.

Vêm do coletivo de animais selvagens presos nos glóbulos de meu sangue, do teu sangue mesmo. Porque quando a gente gosta, o sangue do outro corre em nossas veias também...

Vêm do eu que não existe, porque quando elas chegam já não sou eu. Elas tomaram conta de tudo! Elas me assombram... Arrombam-me, maltratam-me até que o sol parta o céu com seus raios lisos... Falam de tudo o que eu não diria... São outras e diferem de mim mesma, são multifacetadas em cores e refletem carinhosamente Cidas, Marias, Josés, Michelles... Tanta gente que desconheço!

Roubam-me até o lanche das cinco. Gulosas que são estas palavras!

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