Cento e dez anos

Por: Eny Miranda

E o que mais, vida eterna, me planejas?
O que se desatou num só momento
não cabe no infinito, e é fuga e vento.
(do poema Instante) - Carlos Drummond de Andrade

Uma semente engravida a Poesia.
- Vem, menino!, ser serafim do verso,
Querubim da prosa, anjo da rima reversa. -
E Itabira ganha uma promessa.
É Carlos nascendo.

Férrea flor de aveludado cálice
Rompe, áporo, pele, pétalas, porosidades...
E se abre sobre o ouro, o couro,
A vida, a lida, o tempo.

"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida".

Mas há os desejos inquietos,
Há o silêncio, os temores...
- Questões de alma (de olhos, aceitação).
Há essa lua, esse conhaque...

Ah, do homem sério, simples, forte
Atrás dos óculos e do bigode,
Neste mundo vasto mundo,
Há, mais vasto, o coração.

Eis que s/urge a vontade de amar
O Amor, ainda que amaro;
Pluriamar o Amor,
"por dentro por fora nos cantos nos ecos"...
E, de Itabira, pedras rompendo, a prometida poesia
Inunda a vida.
É Drummond nascendo.

Sim, Poeta,
O teu amor "faísca na medula",
É flor de fogo, ardendo, ardendo...
"Acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política",
Eterno corcel rubro além do tempo.

E a Poesia tua, na ausência, é "ferida
No peito transtornado, aceso em festa",
Como noite nascendo.
E a saudade é tão deliciosa,
Que cobre a ferida de presença.

Por isso, não lastimo a tua falta.
Tua ausência "é um estar em mim",
Em nós, no Reino da Palavra:
Sete faces poéticas (mil secretas),
Milhões de estrofes na eternidade
De um Poema chamado Drummond:
Carlos Drummond de Andrade.
 

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