Alma de artista

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Dentre todas as peças de seu fino enxoval, a de que mais gostava era uma colcha de seda branca  com bordados de galhos de rosas, em forma de uma grande guirlanda. Isabel estava feliz, acabara de se casar. Filha de um próspero comerciante na cidade mudara-se para aquela casa, na fazenda de café de seu esposo. Áureos tempos eles viveram, agraciados com saúde, filhos e riquezas materiais. Em sua casa, o bem prevalecia, a justiça e a beleza tornavam aquele ambiente verdadeiro. Além dos seus afazeres, a prendada Isabel desenvolvia atividades manuais com primor, criando lindos trabalhos em bordados, crochê e acabamentos. Estes eram admirados por todos e ficavam cada vez mais mimosos. Suas mãos tinham a magia de tornar tudo belo e atraente. Veio a maturidade e algo a inquietava. Parecia necessitar de mais. Sua mente criativa ansiava por novas sensações. Lembrou-se da colcha de seu casamento, fez um desenho num papel. Gostou do que viu. Daí às telas foi um passo. O primeiro quadro teve como motivo o buquê de rosas que ela guardara em seu coração e que trouxera da casa de seu pai. Outros ela pintou como a branca florada do café, passarinhos voando nas flores, riachos e casas da fazenda, cachos de uva e muito mais. Colocava sua alma na pintura e sendo doce e carinhosa sua mensagem era de amor. Arte e vida se encontravam, numa experiência ética de valorização da existência. Sua veia artística conferiu um sentido a mais a sua vida, dignificando-a. Participou de vários concursos, ganhou prêmios. Seu acervo ficou muito tempo em exposição. Quando perguntada se gostaria de vender alguma obra, enfaticamente, respondia que não. O destino delas já estava decidido. Iria separar algumas para seus filhos e netos, o restante era para doação a um órgão oficial, tornando-as patrimônio público.

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