Viva o livro

Por: Everton de Paula

Que é um livro? Parte matéria, parte espírito; metade coisa, metade pensamento de qualquer ponto de vista, desafia definições. Seu aspecto exterior, basicamente o mesmo há dois mil anos, tem um desenho tão funcional quanto, digamos, o lápis, a luva de látex, o guarda-chuva; impossível melhorá-lo. No entanto, por sua natureza, o livro é mais sublime que os objetos comuns deste mundo. É um veículo de aprendizagem e esclarecimento, um abre-te sésamo para incontáveis alegrias e tristezas. A um simples toque, o nosso livro abre-se imediatamente e caímos num mundo silencioso, para visitar terras estranhas, conhecer pessoas interessantes, descobrir tesouros ocultos, absorver pensamentos edificantes, voar entre as estrelas.

Em 1971, por decisão unânime das suas então 128 nações-membros, a UNESCO designou 1972 como o primeiro Ano Internacional do Livro. Encontrava-me em Paris, neste ano, e me lembro muito bem das exposições e debates literários havidos em pelo menos duas instituições de ensino: a Sorbonne e o Instituto Católico de Paris. O fato de terem sido mundiais as celebrações que se seguiram foi bastante apropriado, pois o livro é o produto final de uma conjugação única de esforços realizados independentemente em longínquos e variados cantos do globo. É como se toda a humanidade tivesse conspirado para criá-lo.

Os chineses deram-nos o papel. A Fenícia produziu o nosso alfabeto. Devemos a Roma o formato do livro; à Alemanha, a arte de imprimir com tipos móveis. A Inglaterra e os Estados Unidos aperfeiçoaram a produção dos livros. Hoje, quando apenas em uma hora milhares de livros saem prontos de impressoras de alta velocidade, parece-nos difícil visualizar o mundo sem livros dos nossos antepassados (apesar de toda comunicação virtual); é notável imaginar o enorme esforço que está por trás da saga do livro.

No começo era apenas a palavra falada. Então, para confiar os seus pensamentos a um meio mais duradouro que apenas a memória, o homem começou a fazer desenhos representando coisas. Talvez a mais antiga escrita por meio da pintura se tenha originado há cerca de 6 mil anos, na Mesopotâmia. Suas imagens pássaro, boi, espiga de cevada eram rabiscadas em tabletes de barro macio, depois endurecidas para preservação.

Essa escrita era, porém, muito complicada, usada, sobretudo, para documentos eclesiásticos e registros públicos. A “literatura” que houvesse como os poemas heróicos dependia quase completamente da tradição oral para a sua transmissão.

A mente ágil dos mediterrânicos, acordando para uma nova cultura, exigia maneira melhor de captar a linguagem falada. Pouco antes do século IX a.C., os fenícios começaram a dividir os sons em elementos básicos, misturando as “letras” resultantes para formar palavras.

Nem bem o homem aprendera a soletrar e um novo problema se levantava. Escrever em quê? Couro, casca de árvore, folhas e tabletes de cera, nada funcionava satisfatoriamente. No Egito, durante cerca de 2.500 anos antes do ano 1, os textos eram inscritos em folhas quebradiças feitas da parte mole de uma planta aquática do Delta do Nilo, o papiro.. O uso desse material espalhou-se gradualmente através do mundo mediterrâneo.

Relativamente frágil, o papiro estava exposto a rivais. Na abastada Pérgamo, na costa da Ásia Menor, escribas escreviam em peles de carneiros especialmente preparadas. Pouco tempo depois do ano 1, um desconhecido escriba romano pegou um monte de folhas de pergaminho, dobrou-as e juntou-as pelo dorso. Nasceu assim o livro. Seus primeiros divulgadores provavelmente foram os cristãos de Roma. Sucedeu que através de toda a Idade Média europeia, um exército de monges dedicados, escondido nos conventos, copiou à mão os esfrangalhados escritos do passado. Sem o seu esforço, as glórias literárias e filosóficas da antiga Grécia e de Roma podiam ter-se perdido para sempre.

Enquanto isso, na China, descobria-se uma substância muito mais barata que a seda; era obtida amassando trapos, casca de árvore e velhas redes de pescar, retirando folhas finas dessa polpa e pondo-as a secar. Assim, no ano 105 d.C., o papel entra na nossa história.

Novo passo ocorreu no mundo ocidental. Em 1439, um artesão alemão, Johann Gutenberg, começou a imprimir com tipos móveis de letras. Levou três anos para produzir 190 exemplares da Bíblia de Gutenberg, de 1455.

Hoje, a produção mundial de livros é fantástica: mais de um milhão de títulos por ano são publicados.

Há quem preveja o desaparecimento do hábito da leitura. Os meios de comunicação de massa filmes, rádio, televisão e as redes sociais de contato virtual a internet, por exemplo envolvem-nos mais completamente e, portanto, comunicam-nos a sua mensagem mais diretamente que o familiar alinhamento de letras negras na página impressa.

Seja como for, o livro tem demonstrado grande espírito de luta e preservação em face destas ameaças. O comércio de livros, no âmbito mundial, ainda é um mercado que não se retrai de modo preocupante.

Os pensamentos e sonhos do homem, sua sabedoria e suas aspirações, estão guardados em livros uma riqueza que pode ser desfrutada por quem o desejar, apesar da existência de um Google.

Você por exemplo, meu caro leitor, sente mais prazer e conforto ao ler um livro, do começo ao fim, nas letras em brochuras que se acomodam em suas mãos ou lê-lo na fria tela do seu computador?

Em tempo: duas notas 1ª O livro impresso tem uma história de 6 mil anos, e um formato (como o conhecemos) de quase 900 anos; o livro virtual tem pouco mais de 10 anos; 2ª Fiz uma enquete do Facebook sobre a preferência do leitor quanto ao livro impresso e ao virtual; a preferência aponta 100% para o livro impresso, o mesmo percentual que vem sendo apresentado ao longo de 5 anos em minhas aulas, cursos, palestras e seminários.

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