Tim Burton e o tema das ressurreições

Por: Sônia Machiavelli

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Frankenstein é o título de um romance gótico, contextualizado no movimento romântico, que gerou um novo tipo de narrativa com marcas de mistério e horror e exerceu grande influência na literatura e cultura popular ocidental. Desde sua publicação, em 1818, sem crédito para a autora Mary Shelley (apenas 19 anos!) na primeira edição, são incontáveis as peças de teatro baseadas na história. Com o advento do cinema, o personagem Victor Frankenstein passou a povoar muitos filmes, perfilando-se de maneiras sutilmente diversas segundo cada diretor que tomava a si a história do cientista que desejou criar um ser humano mas acabou dando vida a um monstro. O primeiro desses filmes data de 1931.

De maneiras plurais, a imagem do personagem tem inspirado cineastas. Simpatizante do gênero, Tim Burton fez sua primeira incursão ao universo de Frankenstein há 28 anos, contratado pelos estúdios Disney. Criou a saga de um menino chamado Victor, que, enlutado pela morte de seu cão Spark, resolve colocar em prática experiências de seu professor de Ciências, que fizera mover com descarga elétrica os músculos de uma rã morta. Dá certo. Spark volta à vida, recebe remendos que o fazem parecido com o monstro de Shelley, é mantido no sótão, escondido dos pais do garoto e da vizinhança, até que acontecimentos imprevistos vêm mudar o rumo da história.

Todos estes elementos, onde se inserem também os vizinhos bisbilhoteiros presentes no curta de 1984, estão no longa de animação Frankenweenie, em cartaz na sala 2 do Cine Franca, como em milhares de outras salas, pois o lançamento, no 2 de novembro, foi mundial. Muitas cenas foram retomadas integralmente: a da cidade de New Holland, a da noite chuvosa no cemitério, a dos ponteiros agitados do relógio, a da vida cotidiana no interior americano, a do incêndio do prédio, a dos eletrodomésticos levados da cozinha e muitas outras. Talvez por isso alguns tenham falado em mesmice, ao avaliarem o atual filme, que é um longa de animação em 3D, preto e branco, stop motion, técnica custosa que pede muitos movimentos por segundo aos bonecos que representam os personagens. O efeito é encantador.

Ao contrário dos que não enxergaram o novo, vi nesta obra muita criatividade no olhar, na técnica, na riqueza temática de um diretor que ama o cinema e vive homenageando a sétima arte. Apondo sua assinatura nos menores detalhes, Tim Burton nos apresenta uma narrativa cuja forma reflete o fundo. Seu filme, como o protagonista, é todo costurado com informações de obras do cinema de horror que lhe foram importantes e de suas próprias obras do mesmo gênero. O professor Rzykruski é a cara de Vincent Price, famoso ator de filmes de terror a quem Tim Burton escolheu para atuar em Edward Mãos-de-Tesoura. O personagem Nassor é inspirado em Boris Karloff, outro célebre ator do mesmo gênero. A vizinha de Victor lembra a Lídia de Os fantasmas se divertem, com Winona Ryder; aliás, também a dubladora da menina na atual versão. Há referências a monstros como Drácula, Lobisomem, Homem-Invisível, Múmia, Monstro da Lagoa Negra. E a personagens literários como O Corcunda de Notre Dame. A tartaruga de um dos colegas de Victor chama-se Shelley, não por acaso o nome da criadora de Frankenstein. Burton promove então outras ressurreições, além daquela personificada pelo cão. Muitos tecidos redivivos formam a colcha que o cineasta parece lançar aos pés dos que o inspiraram e assim também mostrar seu amor ao cinema. Tanto na primeira como nesta versão, Victor Frankenstein é um menino que faz filmes caseiros usando seu cão Spark como ator. Nada mais emblemático. Ainda no nível das coisas restauradas, é sugestivo pensar que a mesma Disney que demitiu Burton por ter criado uma história muito sombria, é a mesma que lhe solicitou o resgate do projeto rejeitado no passado.

Para as crianças, especialmente, há o encantamento, a surpresa e a possibilidade de vivenciar, através de personagens e situações, sentimentos de perda, saudade, medo, coragem, amor, companheirismo, despedida. Cria-se também com o enredo a oportunidade para que vejam nos excêntricos amigos de Victor um convite a pensar as diferenças, pois eles não são apenas caricatos, alcançam certa profundidade pelas falas e atitudes que o movimento e o recurso 3D tornam verossímeis. Tudo isso sem contar que a percepção da finitude dos seres vivos costuma aparecer bem cedo, na infância, e identificá-la de forma estética é uma boa maneira de se iniciar na difícil arte de lidar com a angústia decorrente ao longo da existência.


LEITOR DE ALLAN POE

Tim Burton

Difícil não reconhecer que há algo de sombrio nos filmes de Burton. É uma característica, não um defeito. Talvez isso se deva em parte às leituras dos góticos e de Allan Poe, contista de confessa eleição. Ou então Burton pode ter se identificado com tais autores porque já trazia implícita uma maneira menos ensolarada de olhar a vida. Difícil descobrir a gênese. Mas que em seus filmes transparece algo de muito pessoal, é fato por ele mesmo reconhecido de forma enviesada: “Filmes são como uma forma cara de terapia para mim.”

Sombrio, original, inovador, perfeccionista são palavras que se encontram comumente nos artigos dedicados a uma avaliação de sua obra, que tem no catálogo dezenas de filmes, desde que, aos 25 anos, ingressou na equipe de animadores dos estúdios Disney. Um dos primeiros filmes que fez foi exatamente a primeira versão de Frankenweenie, recusada pelos estúdios que a consideraram muito macabra para crianças. Outros filmes vieram e com Os fantasmas se divertem conseguiu ser notado por Hollywood, engatando a partir daí muitos sucessos de público, como O estranho mundo de Jack, A noiva cadáver, Vincent, Edward Mãos-de-Tesoura, Ed Wood ( pelo qual recebeu um Oscar), A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, a Fantástica Fábrica de Chocolate, Planeta dos Macacos, Peixe Grande, Alice no País das Maravilhas e muitos outros. Cinco deles tendo Johnny Deep como protagonista.


Serviço
Título: Frankesweenie
Produção: 2012, EUA
Diretor: Tim Burton
Gênero: Animação 3D
Onde: Sala 2, Cine Franca

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