Na sala deserta

Por: Caio Porfirio

191601

Ele abriu a porta, entrou, sentou-se, pigarreou alto e aguardou. Ouviu passos no corredor. Ela surgiu, permaneceu um instante em pé, arrastou a cadeira, sentou-se distante dele. Olharam-se longamente. Ruídos na rua. Ele fez gesto de meter a mão no bolso. Recuou. Cruzou as pernas, depois as mãos sobre os joelhos. Ela, pétrea, encarando-o. Olhavam-se firmes. Ele quase fala. Saiu o pigarro. Veio a resolução rápida: levantou-se, meteu a mão no bolso do paletó, tirou-a, mantendo o olhar fuzilante para ela. Deu-lhe as costas, saiu, bateu a porta. Ela se levantou calmamente, retornou para o interior da casa, passos lentos e firmes sumindo-se no corredor.

Passaram-se dias, choveu e fez sol. Sob a neblina ele voltou. Abriu a porta, sentou-se, pigarreou alto, e os passos no corredor a trouxeram de volta. Arrastou a mesma cadeira, sentou-se frente para ele. Olharam-se sem palavras. Tudo se repetiu como antes. Apenas a mão dele foi mais vezes ao bolso e vasculhou-o demoradamente. Ao sair e bater a porta, os passos dela, a seguir, perderam-se no corredor.

Na manhã enevoada, silêncio total na rua, ele retornou. Abriu a porta, sentou-se, pigarreou alto e demoradamente. Os mesmos passos no corredor e então o perfil dela, esbelta. Não arrastou a cadeira. Trouxe-a com cuidado, e sentou-se distante dele. Bem vestido, engravatado. Olharam-se praticamente sem pestanejar. A mão dele foi ao bolso do paletó num gesto rápido e tirou dele um anel. Suspirou ríspido:

- Tome o anel que tirei de você. Esqueça-me.

Ela recebeu-o, acariciou-o. Olhavam-se. Os dedos dela pararam de acariciar o anel.

- Dê-me também o que falta e nunca lhe dei.

- O quê?

- A chave da porta.

Ele levou a mão a outro bolso e trouxe-a. Jogou-a sobre uma das cadeiras. Levantou-se:

- Estou livre.

Ela voltou a brincar com o anel:

- Graças a Deus.

Ele saiu e bateu a porta. Ela se foi corredor a dentro.

A chave, abandonada, permaneceu, silenciosa e sozinha, sobre a cadeira.

Na sala deserta.

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