Vazio Pleno

Por: Jane Mahalem do Amaral

Muitos amigos têm me perguntado sobre meditação.

Os conceitos que se instalaram no ocidente a respeito desse assunto ficaram patinando entre um estranho preconceito ou uma total ignorância. Compreendo os dois lados, pois também eu, antes de me debruçar sobre o assunto para estudar e praticar, encontrava resistência nessa compreensão. Nossa formação judaico-cristã, infelizmente empurrou para bem longe essa prática que era freqüente nos primeiros anos do Cristianismo. Jesus mesmo, nascido no Oriente, era familiar a essa prática. Quem visita Jerusalém encontra no Jardim das Oliveiras as pedras onde Jesus, possivelmente, de acordo com algumas referências do Evangelho, teria se sentado para meditar. E após sua morte, seus discípulos continuaram essa busca pelo silêncio. Mais tarde, os Padres do Deserto, ou os Terapeutas de Alexandria, faziam da prática da meditação o único caminho para chegar ao Pai, além de encontrarem no silêncio a cura da mente e do espírito.

Meditar não é pensar como muitos acreditam: ‘Estava aqui meditando sobre esse assunto e cheguei à conclusão...’ Nesse caso está-se usando a palavra meditação como reflexão, pensamentos. Meditar é o oposto: é esvaziar-se dos pensamentos. É buscar aquele lugar onde a mente se aquieta, a respiração se aprofunda e o silêncio se instala de um jeito delicado e presente. E o que fazer com isso? perguntaremos nós, ocidentais aflitos e barulhentos. Essa compreensão do vazio é a própria percepção consciente das leis universais que nos governam. É a descoberta da encantadora teia de vida em que nada está desconectado ou separado. É a intimidade com a nossa natureza instável, a compreensão da nossa existência transitória e da certeza de que vivenciamos um processo que não pode ser detido. Vivemos as mutações físicas, as emocionais e cognitivas de uma forma dinâmica e contínua e, quase sempre, ficamos só em contato com aquilo que muda, que transforma e que perece. Deixamos de entrar em contato com o que poderíamos chamar de eu imutável. Jack Kornfield, autor de várias obras sobre meditação, nos diz: ‘Nós mesmos somos um processo, entretecidos junto com a vida, sem separação. Surgimos como uma onda no oceano da vida, uma forma transitória, que forma uma coisa só com o oceano. Algumas tradições chamam esse oceano de Tao, o Divino, o vazio fértil, o não-nascido. Dele, nossa vida surge como um reflexo do divino, como um movimento ou uma dança da consciência. E a cura mais profunda surge quando sentimos esse processo, esse vazio que gera a vida’.

Isso pode nos parecer complicado à primeira vista, ou melhor, essa visão não nos é familiar. Mas à medida que nossa meditação se aprofunda somos capazes de sentir essa experiência acontecendo. Os monges da Antiguidade chamavam os mosteiros de observatórios. Ali era o lugar para cada um, no silêncio, se observar e, pouco a pouco, ir adentrando ao mistério da vida.

Enfim, o que significa meditar? Simplesmente tomar consciência de que nossa mente não para de se agitar, preocupar-se, pensar no que aconteceu, esperar ou temer o que está por vir, remoer eternamente situações felizes ou conflituosas que podem ser reais ou consideradas como tal. Ao adentrarmos nesse palco podemos deixar de ser atores e então passarmos a ser apenas espectadores. E aí podemos nos esvaziar. A mente se aquieta e a qualidade de clareza se faz presente. Abrimos espaço para o lado intuitivo e sensível e nos desapegamos do lógico-racional que quase nunca é tão lógico assim. Encontramos a tranqüilidade vazia de significados estruturados. Estamos então experimentando o vazio pleno.

Gostaria de partilhar minha prática com os amigos que me perguntam sobre ela. Nada melhor para compreender a meditação do que vivenciá-la.

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