A bela senhora

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Ela circulava por aquela estância termal com desenvoltura, provando que uma mulher de setenta anos pode ser elegante, jovial e decidida. De manhã, quando surgia entre os hóspedes, parecia pronta para uma festa. Roupas bem talhadas de cores claras, túnicas brancas esvoaçantes, chapéus coloridos. Anéis imensos, brincos com brilho, tamancos altíssimos e bolsas artesanais completavam o seu estilo. O cabelo loiro artisticamente arrumado, volumoso, preso, parecia ter saído das mãos de um criativo cabelereiro. Nos dias seguintes, o mesmo cabelo, impecável, com variações: um pouco mais de lado, preso acima na cabeça ou abaixo próximo à nuca, uma leve nuance no tom, quase despercebida. Durante o dia não se molhava totalmente nas piscinas ou duchas. Preferia ficar sentada na parte rasa, nas pedras, rodeada por muitos amigos e alguns ajudantes. À noite, nas serestas, o brilho era maior. Longos vestidos floridos ou com desenhos geométricos, adornados com bordados em pedras, contrastavam com as bermudas e camisetas dos demais usuários.

Ninguém contestava a sua liberdade de escolha, mas muitos comentavam a excentricidade daquela senhora e faziam suposições sobre quem ela era e o que fora quando jovem. Esta inusitada aparência elevou os níveis de curiosidade ao máximo. Aproximei-me dela, e constatei que por trás daquela figura majestosa, existia uma pessoa educada, alegre e firme. Foi logo me dizendo que o segredo dos seus cabelos era obra de um profissional que trazia ao pé de si desde os tempos em que fora dançarina, inclusive em musicais na Broadway, Nova Iorque. Falava, mesmo, com um sotaque americano, pois tinha vivido lá muitos anos. Viajou para os Estados Unidos , quando jovem, com uma companhia de dança, enamorou-se de um americano, casou-se e por lá ficou. Trilhou o caminho da dança e fez muito sucesso, percorrendo os melhores teatros do mundo. Voltou ao país depois de quase quarenta anos, com muito dinheiro, o que lhe permite viver tranquilamente. Gosta de conhecer lugares turísticos do Brasil, mas como o sentido de sua vida sempre foi o palco, sente-se presa à vida de estrela que viveu. Ainda se veste como tal, pois não consegue se despir de sua identidade de artista.

Chamar atenção pela sua finesa, alegria e comportamento.

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