‘em casa’

Por: Maria Luiza Salomão

“existe uma paisagem interna, uma geografia da alma, cujos contornos buscamos durante toda a nossa vida. Aqueles que têm a sorte de encontrá-la correm tranquilos como a água sobre a pedra, acomodando-se aos seus contornos fluidos, e se sentem “em casa”... Podemos passar a vida inteira felizes ou infelizes, bem-sucedidos ou fracassados, amados ou não, sem jamais parar imobilizados pelo choque do reconhecimento, sem jamais sentir a agonia do momento em que o grilhão retorcido em nossa alma se desprende, e afinal encontramos o nosso lugar.” Perdas e Danos, de Josephine Hart, escritora irlandesa, que deu origem ao filme homônimo, com Jeremy Irons e Juliette Binoche).

A maioria das pessoas situa o “estar em casa”, essa geografia da alma que se busca toda uma vida, na relação com a mãe, pai, ou uma figura significativa. Concretizam, por vezes, o estar “em casa” em uma cidade, bairro, ou na casa da infância. Aqueles demasiado presos ao passado podem não sofrer o tal “choque do reconhecimento”, e, assim, não chegam a conquistar a liberdade dos “grilhões” da alma.

Há os que procuram e pensam que vão atingir o estar “em casa”, no futuro. São os procrastinadores (palavra que eu detesto, o som de “procrastinadores” é macambúzio, não encontrei melhor sinônimo), os que “enrolam” e adiam indefinidamente, que vivem expectativas futuristas quase impossíveis. São náufragos esperando resgate em uma ilha que não consta do mapa.

Mas há outros, mais felizes, que conquistaram um “lugar sagrado”, o com quem, o onde, e o quando estão em casa. Ter capacidade de ser íntimo de si mesmo pressupõe quase nada (ou quase tudo). As cavernas íntimas são úmidas e frias, por vezes desconfortáveis. Mas, nelas, há suficiente número de mistérios por companhia, não há solidão.

Estar “em casa”, ser íntimo de si, é uma conquista laboriosa. O Destino de cada um se perfaz (tempo/espaço) na volta ao ponto de partida, ao ponto de origem. Ao voltear, linda palavra espanhola, vejo o que devo carregar, e de que devo me desprender.

Aprendo muito lentamente a chegar onde sempre estive (e não sabia). É depois de alguns desvios construindo um “caminho de Santiago” interno, depois de peregrinar arduamente com alguns psicanalistas que, finalmente, reconheço quem fui, e de onde parti. Com uma garimpada bagagem acoplada ao coração, dou início.

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