O dia em que choveu dinheiro

Por: Lucileida Mara de Castro

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Para Caio, Laura e todos os seus fantásticos companheiros.


Talvez pouco passasse das dez da manhã quando o céu se fechou dando mostras de que a qualquer momento choveria. A mudança não foi súbita, mas inesperada. Nenhum serviço meteorológico indicara chuvas e, aparentemente, todos erraram ao preverem um dia ensolarado.

Em meio ao trânsito das mulheres no grande quintal, tentando recolher as roupas dos varais antes que a chuva despejasse, pouco se notava a presença de Tia J. que corria de braços abertos de um lado para outro dando vivas ao olhar para as nuvens. Havia mais de uma hora, desde que o céu começara a ficar mais carregado, que o comportamento de Tia J. se havia alterado.

Eu, ainda bem pequena, era a única que atentava para a loucura manifestada naquela mulher que, de vez em quando, fazia movimentos de quem lançava algo em direção à mata que se avizinhava ao quintal. Ao fazê-los, chamava à atenção alguém que me era invisível: – Elza, Elza, estou jogando uma bolsa cheia de moedas de ouro! Vá buscar, Elza.

Meus olhos infantis olhavam o percurso da bolsa imaginária e ficavam sonhando com a possibilidade de realmente existir do outro lado, jogada sobre a raiz de uma daquelas árvores vizinhas, uma velha bolsa marrom de couro cheia de precioso tesouro...

Por isso, quando já adulta ouvi de Caio e Laura que estava chovendo dinheiro, não estranhei. A primeira queda, disseram-me, fora aterradora, pois as atípicas nuvens, por estarem muito carregadas, despejaram moedas de todos os valores. Caindo de tão elevada altitude, as moedas causaram medo, morte e destruição. Porém, passado o primeiro impacto, veio uma chuva de cédulas. Tantas eram as notas que as pessoas não tinham mais onde colocar a fortuna. Cômodos inteiros foram abarrotados de riqueza fácil e gratuita.

Várias mudanças ocorreram desde então: escolas foram fechadas por falta de alunos; empresas abandonadas por demissão em massa de funcionários e desinteresse de empresários; campos abandonados por inexistência de mãos que os cultivassem. Em pouco tempo, instalou-se o caos. Como fossem gafanhotos, os serem endinheirados andavam em busca de algo a ser consumido e iam adquirindo tudo o que encontravam pela frente, logo veio o desabastecimento e, com ele, a fome.

Quando aqueles que tinham alguma noção de como plantar, fiar ou construir procuraram se salvar cultivando um cantinho de terra para si, essas foram saqueadas por criaturas famintas e cheias de fúria. Em pouco tempo, as pessoas foram percebendo que o dinheiro amealhado não lhes seria de nenhuma serventia monetária. Instalou-se a barbárie!

Entre a chuva de moedas e a barbárie, transcorreram apenas alguns minutos, poucos, mas preciosos no espaço da sala de aula. Cabe-me ser mais precisa e contar a história completa. Era um dia de primavera demasiado quente. O enorme trabalho necessário, aliado ao calor, fez nascer a fantasia de a escola não ser necessária. Mas se não houvesse escola, alguém perguntou, como eles construiriam seu futuro? Surgiu a ideia da chuva de dinheiro devidamente enriquecida pela fantasia do medo que chovessem moedas.

Diante de tantas opiniões, os estudos clássicos sobre os antigos gregos puderam esperar um pouco, deram espaço para que debatêssemos sobre as consequências de um mundo sem trabalho e sem produção, sem solidariedade ou construção social. A sala de aula transformou-se em ágora e as discussões viraram embates filosóficos.

Ao final, a fantasia da riqueza fácil e do ócio improdutivo acabou perdendo espaço para a visão da necessidade da construção do tecido social de forma conjunta. Venceram o bom senso e o instinto de sobrevivência. Entretanto, apesar disso, sei que o olhar imaginativo e cobiçoso ficou marcado nas lembranças que o menino Caio carregará consigo. Como não prever que assim será se a menina que há em mim, ainda hoje olha os alicerces que nos dias atuais ocupam o terreno da antiga mata que avizinhava o quintal da minha infância e imagina enterrados, sob as bases de concreto daqueles edifícios ali plantados, os tesouros de Tia J.?

Trata-se da confirmação do quanto é bom que haja o lado lúdico e a fantasia contrapondo-se à dureza da vida.

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