Aberturas

Por: Jane Mahalem do Amaral

Sabe aquela alegria que se sente, às vezes, quando parece que o coração fica sorrindo? Outro dia fiquei a pensar o que me provoca essa gostosa sensação. Nem sempre ela tem um motivo específico. Acontece. E a gente entra em outra sintonia. Agora, caminhando nessa busca de me conhecer um pouco mais, encontrei nas minhas leituras, uma explicação que esclarece. Temos lugares em nós que nunca estão doentes. São espaços de abertura que se conectam com o nosso ser Essencial. Esses espaços já estão salvos, já foram curados. Estão livres de todas as dores, amarguras ou tristezas. São claros, límpidos. Assim, nos momentos em que nossa pequena inteligência se abre a uma inteligência maior , segundo filósofos e teólogos, vivemos momentos numinosos, ou seja, um sentimento único quando se vive a experiência do sagrado. Experiência numinosa são aberturas para o ser Essencial.

E onde estão essas aberturas? Como podemos acessá-las?

Seriam quatro lugares onde o Ser se revela. Um deles é a natureza. Caminhar na floresta, na praia, nas montanhas pode nos revelar não só a beleza do lugar, mas nos leva a descobrir uma unidade com a natureza. Sabemos que estamos presentes no aqui e agora, mas, ao mesmo tempo, nos sentimos na grandeza e na infinitude da natureza. Perdemos os nossos limites. Entramos em contato com o Essencial. E alguma coisa muda em nós, ainda que por pouco tempo, pois logo voltamos à nossa consciência comum. Mas algo nos foi revelado e o sentimento é de alegria profunda.

A outra abertura é a arte. A pintura, as cores, a música, a dança pode nos falar por uma outra linguagem Ao contemplarmos um quadro, por exemplo, entramos em um momento de silêncio. Ao ouvirmos uma música, também nos silenciamos para abrir espaço para os sons. O eu se abre a algo maior do que ele. Podemos integrar isso ao nosso cotidiano, vivenciando também essa arte. Pintar, dançar, cantar, ainda que seja sem técnica aprendida, mas com um verdadeiro desejo interior, pode nos revelar nossa verdadeira natureza. Estamos vivendo uma experiência numinosa.

A leitura seria outra abertura. Quando, em contato com os grandes autores, sinto que aquilo que estou lendo é como se tivesse sido escrito para mim, posso viajar através dessas palavras humanas, chegar à palavra Divina e ouvir o que ela tem a me dizer. Também a linguagem das escrituras, dos evangelhos, do Bhagavad Gita e de todos os textos considerados sagrados pelas diferentes tradições, nos revelam lugares ainda inabitados do nosso ser. Podemos nos sentir sintonizados com algo maior do que nós.

Uma outra abertura de consciência se revela pela meditação. Meditar é nos colocar na presença do Ser. Não só nos acalma, nos tranquiliza, como nos abre a uma dimensão que está em nós e que está no centro, lugar de manifestação do Ser que faz ser.

Fazer o coração sorrir é algo que tem se tornado cada vez mais distante do nosso cotidiano. Estamos blindados contra essas aberturas. Uma casca grossa começa a se formar ao nosso redor e a conexão com esses lugares sagrados pode se tornar inacessível. Abrir-nos para o numinoso é uma experiência que pode nos curar.

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