Aguenta, coração

Por: Luiz Cruz de Oliveira

João Elísio de Carvalho, bancário e professor que tanto me influenciou, trabalhou durante alguns anos na cidade de Uberaba, Minas Gerais. Contava ele que, embora a depressão econômica de 1929 tivesse provocado a falência da maioria dos criadores de gado zebu daquela região, a antiga elite econômica jamais perdera a pose. Os fazendeiros entravam na agência bancária, em busca de empréstimos, sempre ostentando no bolsinho externo do paletó, além do lencinho branco, uma caneta e uma lapiseira. Era o famoso conjunto Parker 51: lapiseira e caneta douradas, com pena de bico de ouro maciço.

Até aí, tudo bem. Acontece, porém, que, na hora de assinar o contrato, o fazendeiro fazia a solicitação:

- Me pega aí a carimbeira.

A carimbeira, espécie de almofada ainda hoje utilizada em repartições eu as vejo em mesas de cartórios, era conservada embebida de tinta. Nela os carimbos eram umedecidos antes de cumprirem sua função de imprimir timbres, nomes de localidades, nomes e funções de pessoas.

- Me pega a carimbeira.

E o mutuário sujava de tinta o dedão da mão direita. Então, imprimia sua digital no documento. Aí, algum amigo, ou testemunha, assinava, “a rogo”, logo abaixo da impressão.

Enquanto isso, as canetas permaneciam douradamente mudas no bolso externo do paletó ou da camisa.

O depoimento do professor me veio à mente ao receber telefonema da amiga Lola. Chocada, contou-me que, numa loja, estando sem óculos, não enxergava com nitidez os ponteiros do relógio fixado no alto da parede. Pediu à balconista que lhe informasse as horas.

- Peraí, que eu vou pegar o meu celular.

- Aquele relógio não está funcionando?

- Está, sim, mas eu não sei olhar relógio de ponteiros. O celular fala certinho.

Nem a risada, nem o cinismo com que o amigo João Elísio relatava o comportamento dos criadores de gado zebu, nem a surpresa da mulher ante a ignorância da vendedora me espantam. A verdade é que convivo diuturnamente com a trágica ignorância de muitos de nossos jovens.

Quase todo dia entro no mesmo estabelecimento, faço a mesma solicitação:

- Quero um pingado e um pãozinho sem manteiga.

Toda vez, a mocinha recorre à calculadora. Compenetradamente, aperta botões da maquininha e depois de algum tempo, explica triunfante:

- É quatro real.

Quase sempre, entrego à mocinha bonita uma nota de dez reais. Ela recorre outra vez à calculadora. Aperta botões, vê o resultado no visor do aparelhinho, mas é conscienciosa, nem sempre acredita no resultado. Repete a operação. Então, tranqüila, devolve-me o troco, dizendo em voz alta.

- Está aqui, senhor. Seu troco: seis real.

Tomo meu café com leite, como meu pão sem manteiga, engulo a vontade de gritar.

- Viva o Coronel Passarinho. Vivam todos os militares que iniciaram a revolução do ensino no Brasil.

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