Messe

Por: José Borges da Silva

Às primeiras chuvas de setembro meu avô designava um dos filhos para que fosse à tulha separar as sementes reservadas do ano anterior, para o plantio do arroz. Enquanto isso ia com o mais velho escolher uma várzea, uma planície úmida, para a lavoura. Em geral nessas áreas não havia vegetação alta e era possível a preparação do solo apenas a enxada. Raramente uma moita de pindaíba ou um persistente ingazeiro requisitava a foice ou o machado. A essas atividades mais rudes os mais jovens acompanhavam à distância.

Logo após o plantio era nossa tarefa, minha e de meus primos, passar o dia de vigília, a afastar pássaros pretos, rolinhas, juritis e outras aves que vinham aos bandos furtar as sementes plantadas. Os pássaros pretos ostentavam fama de arrancar sementes do fundo das covas antes mesmo do dia clarear. Por isso, a vigília começava ainda na madrugada. Meu avô provavelmente não acreditasse muito em espantalhos, porque nunca o vi se valer deles para afastar as aves famintas. Na verdade, acho que as aves brasileiras é que não acreditam muito em espantalhos... Mas, fato é que meu avô acreditava muito em nós.

A época da colheita era uma espécie de ápice para as crianças. Primeiro, meu avô determinava que se cortassem varões altos para armar os largos panos de colher café, para com eles compor o aparato em torno da banca de bater arroz. Depois, ao lado da lavoura madura cobria-se o solo em uma grande área quadrada e, com os varões fincados a prumo, em derredor, armavam-se paredes de pano em três lados do solo protegido. Sobre o pano, próximo à parede do fundo erguia-se a banca de paus roliços, amarrados com cipó. Tudo era muito sério, mas, para nós, meninos, era como se um circo fosse erguido no meio do mato. O que mais queríamos era rolar pelo pano, virar cambalhotas, brincar, enfim, o que muito desagradava ao meu avô. Ele ralhava, reclamava, dizendo que enrolávamos o pano, que atrasávamos o serviço, mas sempre tolerava um pouco de brincadeiras, até que chegassem as primeiras bandeiras de arroz. Aí ele ficava sério de verdade e o pano era desocupado.

A colheita começava com os meus tios espalhados pelo campo cultivado, com a foice de cortar arroz na mão, a ceifar as touceiras que iam sendo depositadas em bandeiras (pequenos feixes) enfileiradas pela planície. Terminado o corte as bandeiras iam sendo transportadas nos ombros, formando grandes montes ao lado da banca. Enquanto dois dos meus tios iam batendo-as contra a sólida bancada, fazendo desgarrar os grãos que eram arremessados para todos os lados e, chocando-se contra as paredes de pano, acabavam ancorados no chão. Esvaziadas de grãos, as bandeiras eram arremessadas para fora do circo e iriam servir para alimentar imensas fogueiras nas festas de São João. Ao fim, o arroz era ensacado ali mesmo e transportado ao celeiro por carro de bois. Para as crianças, era como que o fim de uma festa. Para os adultos, aquela atividade toda cuidadosamente planejada pelo meu avô era a garantia da subsistência da família pelo menos até a próxima colheita. Para as crianças, era uma seara cujos frutos as acompanhariam vida afora, cujas sementes especialmente preservadas assegurariam plantios em tempos futuros bem mais distantes.

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