Os Descendentes

Por: Maria Luiza Salomão

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George Clooney interpreta o protagonista Matt King em Os Descendentes, filme que poderia passar despercebido, tipo sessão da tarde, se não pudéssemos aprofundar o tema em várias camadas de interpretação. A história segue o curso real da vida. Clooney encarna, convincentemente, um pai atarantado, às voltas com várias vidas em suas mãos, e... perdido!

Às vezes é preciso um tremendo choque para podermos acordar para o que está diante do nariz, e Matt começa o filme dizendo exatamente como as pessoas podem fantasiar a respeito de sua vida. Ele mora em um lugar paradisíaco, é descendente de nobres nativos havaianos, co-herdeiro de 25.000 acres de terras virgens e cobiçadíssimas para diferentes investimentos.

Enquanto sua mulher, Elisabeth, está mergulhada em um coma, Matt parece acordar do seu. Entre os três anos e os dez anos de sua filha caçula, Scottie, ou seja, durante sete anos, Matt esteve ausente da família, psicologicamente, é o que vamos entendendo. Agora ele precisa tomar decisões vitais: desligar os aparelhos que mantêm sua mulher viva, seguindo sua vontade testamental; vender as terras havaianas das quais é depositário, pressionado por parentes, como co-herdeiro (descendente) e advogado da família; e, finalmente, cuidar das duas filhas, cujo crescimento mal acompanhou. Ao descobrir, pela filha adolescente, que sua esposa mantinha um relacionamento extraconjugal, Matt se abala e começa uma investigação sobre esse homem que a sua mulher amara .

A riqueza do filme está nos diálogos de Matt com as filhas, tentando reconquistá-las. Assim como nos monólogos que estabelece com a mulher em coma e consigo próprio.

Somos descendentes e criamos uma descendência elos de uma cadeia humana. E, no entanto, vivemos a cada dia como se estivéssemos em completa solidão. É o que diz Matt sobre a família, usando o modelo de arquipélago do Havaí. A família, diz Matt, parece com o arquipélago havaiano - várias ilhas, separadas e solitárias, e que se distanciam mais e mais...

É um modelo triste, esse, para falarmos de Família. Uma vez usei o modelo de “constelação de estrelas” para falar da Família, o que me pareceu uma imagem estável e permanente, articulada e secular, musical. Mas o modelo de arquipélago, que vai se distanciando... ilhas solitárias que se afastam umas das outras...é uma imagem que corresponde ao drama vital que Matt sofre, ao descobrir que a mulher com quem vivia lhe era desconhecida, assim como as duas filhas. Ele mesmo se desconhece na relação com a herança das terras havaianas.

Ao refletir sobre seu modo de criar os filhos, que a mulher parecia discordar (Elisabeth o acha avarento), Matt diz que seguia o ensinamento do seu pai: Dê aos filhos dinheiro para fazer algo, mas não para que eles não façam nada. Matt vivia com o salário de advogado, e não como um milionário herdeiro de terras de sua tataravó, uma princesa nativa, que viveu nos idos de 1860, e se casou com um banqueiro havaiano.

Podemos tomar essa rica frase grifada acima, e substituir a palavra dinheiro por qualquer outro legado que um pai possa deixar aos seus descendentes. Claro está que o pai de Matt não deixou apenas dinheiro suficiente a ele, mas alguma sabedoria de que ele lança mão nesse momento crítico para assumir a paternidade de suas filhas, assim como a parceria com a mulher, Elisabeth, ao sustentar seu desejo, o de não permanecer viva à custa de aparelhos.

Matt King aprende a se dar, como pai, como homem, e também como descendente de uma linhagem nobre, ligada à história de um país, o Havaí. Assumir a paternidade é tão importante quanto assumir a maternidade, e não só para a Família nuclear. Creio que, contemporaneamente, temos nos ressentido da ausência da figura paterna, com letra maiúscula. O Pai confere a descendência não só biológica, hereditária, mas a descendência cultural, confere, ao dar o seu Nome aos Filhos, uma cidadania.

O pai de Matt King estava certo. É preciso dar aos filhos algo que não impeça que eles deixem de fazer aquilo que só eles, filhos, podem fazer. É preciso não confundir: empanturrar os filhos não é a mesma coisa que nutri-los. Goethe dizia: “é preciso conquistar aquilo que é herdado dos nossos pais”. Esse é o melhor sentido de descendência. Não apenas receber o herdado, mas conquistá-lo, ou seja, ser merecedor do que é dado. Ao se assumir pai e marido (mesmo da mulher-morta), Matt King conquistou de uma só vez, a condição de ter uma Família e um Reino. Talvez Matt, ao se transformar, abandone o modelo de arquipélago, com suas ilhas solitárias, ao pensar na Família.

As ilhas solitárias e separadas do arquipélago-família poderão, em um movimento reverso, se aproximarem, e constituírem um Continente, articulado e ascendente, fundante.


ELEGENDO O SIMPLES

Alexander Payne

De ascendência grega, Alexander é um diretor americano, de Omaha, Nebraska, que fez cursos de história e espanhol em Stanford. Também estudou na Universidade de Salamanca, Espanha.

Ganhou Oscar de Melhor Roteiro Adaptado para Sideways - entre Umas e Outras, 2004 e para o filme resenhado Os Descendentes, de 2011. Também teve algum sucesso com As confissões de Schimidt, 2002, com Jack Nicholson. Ele disse: “quando estou filmando não me preocupo com quem é a ‘estrela´. Eu vejo um ator representando e estou servindo ao script, e não à carreira de ninguém. Minha esperança é que, depois de 20 minutos, talvez a audiência se esqueça de Clooney ou J. Nicholson e apenas veja o protagonista do filme”.

Quando recebeu o Globo de Ouro para Melhor Filme para Sideways - entre umas e outras, Alexander disse estranhar um mundo em que fazer um filme simples e humano era uma realização. Como Os Descendentes, um filme humano, com uma história simples, contada sem melodramas ou clichês. Uma história que pode ocorrer com qualquer pessoa, mas que merece ser sentida, pensada, narrada.

Os Descendentes é o filme escolhido pelo grupo Cinema e Psicanálise para ser apresentado hoje, na Sede Campestre do Centro Médico, às 15 horas. Em seguida, a psicanalista Josiane Barbosa Oliveira o comentará e responderá a questões do público presente.

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