Um quadro para uma senhora cansada

Por: Mirto Felipim

Acordou frouxa, como sempre acontecia uma vez na madrugada, tateou com os pés o chão frio até encontrar os chinelinhos. Fez o nome do pai e arribou o corpo pesado de tantos anos, com a bexiga implorando alívio e a murcha boca sedenta.

Ao ultrapassar a porta para sala, sentiu um ar diferente batendo suavemente contra seu frágil ser. Fechou um pouco mais o roupão, mas não era frio o que sentia. Também não era a sala de sua casa. Era um salão enorme, sem tamanho algum, com centenas de paredes, que também não eram paredes, eram quadros, inúmeros, incontáveis, eternos. Também não era a luz de sua casa que iluminava, era uma luz sem origem, sem cor, sem definição.

Apertou os olhinhos e lamentou ter deixado os óculos no quarto. Mas não precisava deles. Os quadros eram nítidos, eram quadros seus. Nossa, como estava moça naquele ali, e aquele outro, nossa como a mãe era bonita, e a criança no colo era ela, e aqueles meninos todos, e aqueles velhos todos, todos conhecidos, todos esquecidos, todos presentes. Pessoas sorrindo, algumas de braços abertos, convidando ao abraço, outras severamente tristes e todas passando, passando, passando ...

Os quadros continuavam passando e ela, passando por eles, sentia-se cada vez mais confortável. Agora eram paisagens da infância, a roça, os algodoais, cafezais, rios, uma ligeira sensação de fome e dor nos calos das mãos roçou sua memória, mas logo foi relegada. A beleza daquele quadro, agora em sua frente, gritou, radiando todas as esperanças de paz. Era o quadro com seus dois ipês amarelos, frente aos quais tantas vezes passara a caminho da panha de algodão ou café, sonhando um dia repousar em suas sombras. Ali estavam, floridos, lindos, pelo sábio requinte da rude natureza. Entre os dois uma linda rede de cores inexistentes e apropriadas. Uma lágrima de alegria ameaçou desabar. Era a lembrança mais linda que tinha e, de tão bem guardada, a esquecera. Mas agora os ipês a convidavam ao repouso merecido. Então o quadro se tornou realidade, convidando-a a realizar sua vontade incontida de descansar na placidez da delicada malha. Sentou-se na beirada da rede, descalçou os chinelinhos, e, sem nenhuma outra necessidade física, deitou e adormeceu serena à espera da perene manhã.

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