Mestre de obras

Por: Marcos Cason

Matusalém. Este deveria ter sido seu nome de batismo.

Sim, pois segundo o livro de Genesis, capitulo cinco, versículo vinte e sete, Matusalém viveu novecentos e sessenta e nove anos.

Mas nasceu Epamonindas. Afinal, seus pais não poderiam prever o futuro daquele rebento. Todos os seus amigos achavam que sua façanha deveria pertencer ao Guinness World Records (antigo Guinness Book), o livro dos recordes mundiais. Mas qual façanha?

Teve em sua vida mais de quinze empregos, e ressaltava todos com carteira assinada. Que por sinal já possuía quatro carteiras de trabalho totalmente completas e já se encontrava na quinta edição. E se somados todos os tempos de trabalho registrados em seus empregos, segundo ele, a conta ultrapassava os duzentos anos.

Senão vejamos: doze anos em seu primeiro emprego, em uma fabrica de calçados, cinco anos e meio em uma loja de departamentos, bancário por sete anos, saiu para gerenciar uma farmácia de uma rede da capital que aportava por aqui e lá permaneceu por mais de seis anos, mais este, mais aquele, aquele outro e muitos outros. Neste meio tempo, prestou concurso para uma estatal, e aprovado, trabalhou por nove anos até ser convidado para a diretoria de uma cooperativa, onde se aposentaria por tempo de serviço (?). Desnecessário dizer que em todos os empregos em que havia passado se vangloriava de todos os anteriores, sendo alvo de chacotas dos colegas, porém, justiça seja feita, nunca havia feito nenhum tipo de apelação pelas constantes gozações, segundo ele. Desnecessário dizer também que sempre fora um funcionário exemplar. Mas por que não permanecia nos empregos? Ele nunca contava.

Já fazia treze anos que Matusalém, carinhosamente chamado de “Matusa” comparecia religiosamente todos os santos dias na cooperativa. Como a lei exigia que se contratassem estagiários, a empresa contratou um deles para trabalhar no departamento ao lado de Epaminondas.

O estagiário, novo alvo de gozações dos funcionários, ficou sabendo das dezenas de empregos de Matusa.

Final de ano. Confraternização entre os funcionários, todos alegres e bebendo um pouco além da conta, até que o estagiário se aproximou dele e inocentemente, estimulado ou não pelos colegas, nunca se soube a verdade, disparou:

- Seu Epaminondas, é verdade que o senhor foi mestre de obras da Arca de Noé?

Silencio sepulcral na festa.

Duas demissões.

Depois do quebra-pau.

O estagiário estava apenas começando, mas e o Matusa?

Um novo emprego, um novo registro? E por que não?

Rumo à sexta carteira de trabalho.

Bateria seu próprio recorde.

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