Juca e Chico

Por: Aryane Cararo

Você está sendo provocado. Por duas editoras e dois meninos travessos, maldosos, incorretíssimos. Pulo do Gato e Iluminuras relançam ao mesmo tempo as travessuras de Juca e Chico. Clássico da literatura alemã escrito por Wilhelm Busch em 1865, e traduzido no Brasil em 1915 por Olavo Bilac, o livro é uma provocação à tendência do politicamente correto que canibaliza a literatura infantil. Na época, era um retrato do sadismo infantil e uma crítica à burguesia. Hoje, é tudo isso, além de uma ironia ao que as crianças têm à disposição para ler. As reedições vieram para bagunçar o coreto, como diz o editor e dono da Iluminuras, o argentino Samuel Leon.

Quem tem mais de 40 anos talvez se lembre dos versos bem-humorados dos impiedosos Juca e Chico, nome dado por Olavo Bilac para Max e Moritz no Brasil - a última edição foi de 1976, pela Melhoramentos. Os dois meninos cometem sete travessuras, todas cruéis, numa narrativa rítmica divertida. Eles começam provocando o degolamento das galinhas de dona Chaves (ou Oliveira, na tradução da Iluminuras), seguem roubando as próprias aves assadas, serram a madeira da ponte para o alfaiate cair no rio, colocam pólvora no cachimbo do sacristão, depositam besouros na cama do tio, subtraem doces do padeiro e rasgam sacos de farinha até que o castigo, igualmente cruel, de uma moralidade europeia rígida do século 19, vem após os sete pecados. Comportamentos nada exemplares para os dias atuais, mas que agradaram estudiosos da literatura infantil.

‘É um livro divertido, irreverente e destemido. Hoje, você tem tudo muito comportado, pasteurizado e, nele, existe a violência, a travessura, a maldade, o castigo’, diz a crítica literária Marisa Lajolo. Ela acha bom que as crianças vejam isso, porque ‘faz parte do comportamento humano’ e serve para entender que existe um preço a ser pago pelas coisas erradas.”

Apesar de se tratarem do mesmo livro, as reedições são obras distintas. A versão da Pulo do Gato mantém a tradução de Bilac, um texto quase centenário que não perdeu o frescor e continua muito divertido em suas rimas - e tem nisso um ponto alto. A edição da Iluminuras, por sua vez, mexe e preserva exatamente o inverso. As ilustrações seguem a ordem e as cores utilizadas por Busch, autor que é considerado um precursor dos quadrinhos modernos. Mas o texto é uma nova tradução, feita por Claudia Cavalcanti.

Ilustrações ou tradução originais, o fato é que o mercado acaba de ganhar duas experiências de leitura completamente diferentes, complementares e altamente provocativas. Do jeito que a literatura infanto-juvenil está precisando.

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