E por que não?

Por: Marina Garcia Garcia

- Boa tarde!

Ela estava vendo a TV, distraída. Voltou-se quase irritada ao ser interrompida no seu silêncio de pensamentos ruidosos.

—Boa tarde! , respondeu. Abriu um sorriso forçado. Notou a simpatia da senhora ao lado e se dispôs a abrir caminho para o diálogo.

—Boa tarde! Tudo bem?

—Tudo bem! Quer dizer, na minha idade a gente nunca está tudo bem; né, minha filha?

— Realmente, o local não impressionava pela saúde. Era a sala de espera de um hospital.

Resolveu continuar o assunto enquanto esperava a pessoa que consultava o médico lá dentro.

—Pois a senhora me parece muito bem, pelo menos aparentemente.

— Tem razão, aparentemente. Eu não queria vir não, mas minha neta insistiu tanto...

Observou que a interlocutora usava um português corretíssimo. Interessou-me um pouco mais.

— Está com algum problema?, perguntou ajeitando-se na cadeira. Analisou o rosto da outra. Apesar da idade, era bonito e sem muita ruga, olhar era firme e luminoso.

—Problema de pressão alta. Moro aqui perto, mas não me deixam vir sozinha. Andava por todos os lugares aqui. Meu pai foi o fundador da banda que tocava no coreto da praça. Depois desmancharam. Você não deve se lembrar, não é?

— Do coreto da praça central não, mas me lembro do coreto da Estação. Gostava de ouvir a banda (cantando coisas de amor).

— Seu pai era instrumentista? Tocava muitos instrumentos?

— Sim, tocava. A minha casa vivia cheia de gente. Eles costumavam ensaiar lá durante a semana.

—E a senhora toca algum instrumento também?

—Até que comecei a aprender, mas depois parei, fui aprender outras coisas: bordado, crochê... Depois casei... Hoje eu gostaria de saber tocar como meu pai.

—Ainda pode, se quiser. Falou sem convicção. Lembrou-se das tentativas de aprender violão. A desculpa de sempre: a falta de tempo para justificar o pouco empenho.

—Ah, hoje já não, minha filha, replicou a idosa. E a conversa seguiu animada. Outras pessoas entraram na conversa e o assunto desdobrou-se em filhos, trabalho, carestia, futuro prefeito, etc e tal.

Chamaram a senhorinha. Ela levantou-se com dificuldade e lá se foi. Agora, acompanhada da neta.

O domingo se espreguiçava, e o calor era sufocante. Ponderou que para quem não queria conversa, até que rendera. Provavelmente, não se lembrará da mulher se a vir na rua, mas guardará a imagem da prosa.

Descobrir gente é sempre muito bom. Os pensamentos... que esperassem.

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